PorcelanasO cheiro de canela e hortelã impregnou-se no ar daquela pequena cozinha com janelas azuis.

Aquele espaço parecia ter sido feito para almoços de domingo e cafés da tarde. Era praticamente inimaginável pensar em humores alterados ou discussões naquele espaço tão dócil, tão acolhedor.

Assim que a jovem moça encostou a xícara no pires de porcelana, decidiu que chegara a hora de despedir-se.

Como de costume, pegou o pequeno guardanapo da mesa e o encostou, de leve, nos lábios. Seus olhos azuis costumavam ficar ainda mais azuis quando em contraste com o pano branco, bordado de turquesa nas pontas.

Era esse o ritual de partida, e ele se repetia durante os últimos dois anos. Era o momento mais dramático da visita. Ambas — tanto a jovem quando a senhora — sabiam que, independentemente de quão viva tenha sido a conversa e de quão verdadeiros tenham sido os risos e o compartilhar dos segredos, assim que a moça se pusesse em pé, a senhora começaria seus lamentos sobre a solidão.

— Grata pelo chá e pela companhia, senhora Valquíria. Como das outras vezes, os sabores, os aromas e a conversa renovaram-me. — disse a moça ao levantar e ajeitar rapidamente o vestido que ganhara o formato da cadeira.

— Vês minha solidão, menina? É quase palpável! Assim que partires serei, mais uma vez, só.

— Senhora, tu tens tino para a poesia. Alguém já lhe disse?

— Não terei a quem oferecer cafés, bolos ou chás até que voltes. Serei apenas eu e as samambaias. E as orquídeas roxas que ficam lá fora, no quintal. — resmungou, ignorando o último comentário da moça.

— Vamos lá… Assim que se passarem alguns dias, retornarei… E tu me darás uma outra xícara de chá; e eu trarei bolinhos de canela, como os de hoje… E conversaremos sobre o que a senhora desejar.

— Desejo mais do que prosa e bolinhos de canela, minha querida. Preciso não sentir-me só. Ignorei a solidão durante anos e agora sou arrebatada por ela todos os dias. — confessou com os lábios vermelhos que, já pequenos por demasiada idade, de tristeza, encurtavam-se ainda mais.

Não havia o que dizer. A moça já esgotara todas as suas falas de partida.

— Infelizmente, tenho que ir. Por favor, leia o livro que trouxe. Conversaremos sobre ele quando eu retornar. Assim nossa conversa continuará a acontecer a cada página que colocardes os olhos.

— Ah, menina… farei isso. Perdoe-me a tristeza. Ela é tão constante que não sei caminhar sem que eu deixe seus rastros.

A senhora passou as mãos pela face da menina e, olhando-a nos olhos, desejou-lhe bênçãos.

— Deus seja contigo, minha filha.

— Deus a abençoe. — retribuiu.

Desde que seu esposo e seus filhos se foram, os últimos em busca das grandezas financeiras, Valquíria vivia a dizer que morreria só.

Para a jovem todas as visitas, apesar de doces e agradáveis, acabavam por se tornar aterrorizantes quando repensadas no fim do dia. Questionava-se sobre a impotência humana diante do amor, tanto no ato de receber quanto no de doar. Mais do que tudo, questionava-se sobre essa possibilidade de recusa.

”Como pode ser possível alguém tão agradável ser atingida por tal abandono?!”, perguntava se.

(…)

Valquíria se foi numa noite de março, três dias depois de uma xícara de chá e conversas sobre a sua juventude. Naquela tarde, a senhora parecia rejuvenescida. Até seus lábios pareciam estar maiores e mais vermelhos; e — diferente de todas as outras vezes — depois do café, ela não pediu para a moça ficar. Deixou-a partir depois da sua benção.

— Minha querida, Deus seja contigo. — despediu-se pela última vez.

Assim que soube do ocorrido, a jovem foi à casa. Não foi surpresa alguma ver pela primeira vez os dois filhos de Valquíria, que conversavam com o doutor; nem as crianças, que agora brincavam no quarto que sempre fora delas. Para elas. Feito para fazê-las ficar.

Assim que os filhos saíram do local, um para atender ao telefone e o outro para ir ver as crianças, a moça entrou no quarto e perguntou ao doutor:

— Do que ela morreu, doutor?

— Não faço ideia, menina. Talvez por idade.

— Ou por abandono.

— Abandono?

— Não vês?! Ela está cheia de hematomas…

Luciana Leitão
Ábaco de letras | contando estórias