Meu pai, viajante, ficava feliz só de estar viajando, sem pensar no destino. Ia baforando o seu cachimbo, olhando para fora e imaginando grandes coisas que nunca aconteceriam. Ele se alimentava dos seus sonhos. Depois dormia embalado pelo sacolejo do trem.

Rubem Alves, em O velho que acordou menino

ViajarDesde antes do tempo em que a gente se lembra das coisas eu ja adorava passear. Pelo menos eh o que as pessoas me dizem e minha memoria, ate onde ela alcanca, nao desmente isso.

A alegria do vovo e da vovo, que moravam na casa ao lado, era me ouvir chorar (talvez berrar seja o verbo correto) quando a lua ja reinava soberana no ceu estrelado e as criancas normais ja estavam sonhando ha horas. Nao que eles fossem sadicos (o que talvez ate tenha sentido, mas isso eh uma outra historia), mas porque eles tinham carro e meus pais nao. Eles sabiam que diante de tal choro nao havia nada que me fizesse dormir a nao ser me levar para dar uma volta. Entao, la vinham meus avos pela calcada, de pijamas mesmo, para me socorrer — afinal, quem em sa consciencia os flagraria numa hora dessas em uma cidadezinha daquelas? Vovo vinha com as chaves do Fusca branco na mao direita e a vovo na mao esquerda para me buscar. Ja no carro, eu ia no colo da vovo enquanto o vovo dirigia dando voltas no bairro. Eu olhava atento pela janela, distraido com o nada, ate adormecer.

Quando ja era mais velho (pelo menos era assim que eu me via) comecei a ir de perua para a escola. Lembro que minha mae se incomodava muito com o tempo em que eu ficava nela, pois como o tio da perua morava na rua da frente, eu era a primeira crianca a embarcar na ida e a ultima a desembarcar na volta. Mas isso nunca foi um problema para mim. Ela ja deveria saber que eu ficaria com o nariz colado na janela, olhando o mundo passar la fora enquanto por dentro eu fazia minha viagem particular. Acho que as outras criancas pensavam que eu era quieto, estranho ou antissocial (se elas conhecessem esta palavra), pois eu quase nunca interagia com elas. Na verdade, isso nao me importava. Meu universo era outro. Minha mente sempre estava em outro lugar muito mais interessante.

Quando a gente eh crianca, a cronologia das coisas nao eh muito precisa. Parece que tudo o que a gente fez aconteceu quando tinhamos 10 ou 12 anos, mas eh praticamente impossivel caber tanta coisa em tao pouco tempo. Entao, quando eu tinha 10 ou 12 anos, ganhei o melhor presente de aniversario que uma crianca poderia sonhar. Como teria dito o Bozo no canal 4, ganhei “a tao sonhada bicicleta”.

Como meu primo ja tinha uma ha alguns anos e depois dos almocos de domingo, enquanto os adultos tiravam suas sestas, as criancas iam para a rua andar de bicicleta, minha BMX Monark aro 20 azul nao precisou de rodinhas para ganhar as ruas do bairro. Que tempo maravilhoso foi a infancia no interior! Toda tarde era tempo de aventuras em cima da minha nova companheira. Primeiro eu desbravei cada rua, beco e viela do bairro; depois foi a vez do bairro vizinho; entao varias regioes da cidade e, se nao fosse a proibicao dos meus pais, eu estaria pegando estrada com a minha BMX. Com o tempo, ela substituiu a perua nas idas e vindas da escola. Antes, mesmo com a gritaria das criancas, eu ja viajava “sozinho”; mas agora, eu estava realmente so. E livre!

Muito mais do que os caminhos, lembro do vento no rosto, da mente girando mais do que as rodas. Eu estava mais uma vez viajando. Era sobre aquelas rodas que as licoes da escola entravam na minha mente. Que as coisas de Deus aprendidas na igreja faziam sentido. A velocidade nao era uma necessidade; o que importava era a calmaria e a plenitude da solitude.

Mas esse tempo nao durou para sempre. Chegou a epoca da faculdade e com ela uma nova cidade. A distancia tornou impossivel o uso da minha bicicleta, mas quem disse que eu parei de viajar? Agora a coisa toda acontecia de trem, com baldeacoes em onibus e metro. Era dificil se concentrar nas conversas ou ate mesmo na menina loira que sentava no banco da frente e sempre tentava puxar assunto, pois sempre havia uma janela. Se bem que, nessas alturas, eu nao precisava mais de janela para viajar. Minha mente ja tinha construido a sua propria janela. As vezes acho que nem o Herbert Vianna compreendeu melhor do que eu o verso da cancao “Esta tarde” quando diz: “e o viajar já é mais que a viagem”.

Nao posso dizer que eu nao cochilava vez ou outra, mas garanto que essas viagens indo e vindo da faculdade foram minha valvula de escape para as pressoes naturais do fim da adolescencia e entrada na vida adulta. Foram elas que solidificaram meu carater, pensamentos e crencas. Foi nesta fase em que a janela ganhou novos companheiros: os livros. Finalmente eu entendi: que janelas maravilhosas sao essas pequenas folhas presas!

Mais alguns anos se passaram e agora, ja formado e trabalhando, voei pela primeira vez. Talvez extase seja uma palavra que se aproxima do que senti, mas ainda nao explica a plenitude do sentimento. Nem sempre existe na linguagem a palavra certa. So sei que, la no alto, ao subir aquela cortininha de plastico, fiquei estatico e extatico. Olhar para o mundo em miniatura me fez enxergar o todo, o meu lugar neste todo e, principalmente, a minha insignificancia no todo. Se eu fosse Deus, teria dado asas aos homens. Se eu fosse inventor, teria criado bicicletas voadoras.

Enfim, a vida seguiu e nunca deixei de ser um viajante particular. Ate as brigas com a esposa eram resolvidas com voltas sozinho de carro. No inicio ela ate tentava conversar para me acalmar e tentar acertar as coisas, mas logo percebeu que de nada adiantava. Com o tempo ela entendeu que este era o unico jeito que me fazia zerar a mente e voltar a sanidade.

Para mim, depois do aviao, eh claro, a viagem ideal era passar horas no carro. Simplesmente dirigir, preferencialmente numa estrada vazia e em velocidade moderada. Musica, apesar de as vezes estar presente, nem se comparava ao silencio.

Sei que parece impossivel, mas descobri um amigo que era como eu (nunca pense que sua esquisitice eh unica no mundo). Comecamos, entao, a fazer o que a gente chamava de random trip. Uma vez por mes, acordavamos num sabado bem cedo para viajar a um lugar escolhido aleatoriamente. O objetivo era simplesmente alcancar aquelas coordenadas, e nao visitar ou explorar o ponto de chegada. Iamos no mesmo carro, mas pouco conversavamos. Era uma conversa silenciosa que so nos entendiamos. Quando a gente chegava la, descia do carro, olhava ao redor e voltava. Simples assim. Talvez quem suba o Everest tenha um pouco disso, afinal, o que ha para se fazer la em cima a nao ser dar um grito?

Infelizmente a vida fez o que costuma fazer: andou; e essa amizade mudou de lugar. Deixou os sabados para entrar na memoria. Espero que este amigo, assim como eu, nunca se esqueca dos momentos incriveis que passamos juntos. As vezes o silencio fala mais alto do que o discurso.

Entao chegou o dia de fazer a minha ultima viagem, como de costume sozinho e em baixa velocidade para nao deixar escapar nenhum pensamento. A estrada era de mao dupla, sinuosa, com apenas uma faixa de cada lado. Um caminhao se irritou atras de mim por algum tempo, ate que forcou a ultrapassagem em uma curva e, para nao bater no onibus que vinha na pista contraria (sera que havia algum outro sonhador naquele onibus?), se jogou contra o carro deste sonhador. Nao tive mais tempo de sonhar. A unica coisa que consegui fazer nos poucos segundos de voo com vista para o mar — pela segunda vez na vida me vi estatico e extatico como naquele primeiro voo — foi pensar em uma oracao em que pedia a Deus para cuidar de minha esposa e de meus dois filhos enquanto eu seguia para a viagem derradeira.

André Barsottini
Ábaco de letras | contando estórias