Introdução (ou “o que é o RPG Ábaco?”)

O projeto RPG Ábaco é, antes de mais nada, uma brincadeira literária.

O Ábaco de letras tem alguns autores fixos, cada um com seu estilo e particularidades. Mas um dia surgiu a pergunta: “O que será que aconteceria se a gente escrevesse uma estória juntos, intercalando o autor a cada capítulo?” Nascia, assim, o RPG Ábaco, o jogo literário.

Eis, então, o primeiro capítulo desta brincadeira (novos surgirão ao longo do tempo). E aproveitamos a oportunidade para apresentar mais uma autora do Ábaco de letras.

Seja bem-vinda, Carol Simão! (conheça melhor a autora neste post).

Divirta-se!


Marçal Vastro. Detetive particular

(por Carol Simão)

RPG Ábaco | Cap. 1

Londres, 1955.

Marçal Vastro era um jovem na casa dos vinte e muitos anos. Criativo, nunca havia tido muita oportunidade. Ainda morava com a mãe e seu cachorro. Sempre estava procurando algo que revolucionaria sua vida, mas a verdade era que ele não tinha muito o que oferecer. Sempre lendo e observando as coisas da vida, Marçal era curioso, mas pouco esforçado.

Sua mãe já não aguentava mais o filho em casa e estava disposta a ajudá-lo no que fosse necessário para que ele desse um rumo em sua vida. As brigas e discussões eram constantes, pois Marçal pensava que poderia fazer ou ser algo grande, mas sua mãe sabia que o tempo estava passando e o filho precisava era arranjar um emprego.

— Marçal, meu filho. Eu digo isso para o seu bem. Não estarei aqui para sempre. E então, como será quando eu partir? Você precisa aceitar a oportunidade que o Sr. Smith está te dando.

— Mamãe, a senhora sabe dos meus planos. Eu não posso me contentar em ser o ajudante da venda se posso ser o dono dela.

— Mas meu filho, acontece que não podemos viver apenas de sonhos. A aposentadoria que recebo não é muita e quase não dá para pagar as contas. Você precisa acordar para a nossa realidade.

E assim, mesmo contrariado, Marçal aceitou o avental e foi ser ajudante na venda do Sr. Smith. Não que ele gostasse disso, mas sabia que continuar discutindo com sua mãe não o levaria a lugar algum.

Todos os dias ele chegava por volta das 9h15 e abria a venda. Sua rotina era sempre a mesma. Abrir a venda, limpar os balcões, separar os grãos, abrir a caixa registradora e esperar. Sim, esperar. Os clientes costumavam chegar depois das 10h e então era uma loucura. As empregadas tinham listas enormes para suas patroas. Os meninos de recado traziam vários pedidos para serem separados e entregues. Marçal ficava atolado de trabalho até ao meio-dia, quando tudo finalmente se acalmava. Era hora então de varrer o chão e esperar que outros clientes chegassem para os habituais pedidos vespertinos.

Essa foi a rotina de Marçal durante seis meses. O salário não era alto, mas pelo menos sua mãe não estava mais pegando no seu pé e ele podia sonhar com algo melhor em paz. Durante o tempo em que estava trabalhando, Marçal começou a observar os clientes que apareciam. Em sua maioria eram meninas muito jovens que trabalhavam como damas de companhia ou senhoras bem gordas que trabalhavam como governantas. Mas, de vez em quando apareciam outras personalidades bem distintas. Entre elas a Sra. Whitman que sempre pedia ração para sua cachorrinha horrível e granola para ela.

— Granola para mim e ração para Fifi!

— Sim, senhora. Algo mais?!

— Não, apenas isso.

A Sra. Whitman era uma das mulheres mais bem vistas da cidade. Muito elegante, nunca usava maquiagem demais. Devia ter uns sessenta e poucos anos, mas estava bem conservada. Seu esposo estava sempre ao seu lado, parecia seu segundo cachorrinho horrível.

— George, meu bem. Poderia pagar pela granola e a ração?

— Claro, querida. Quanto ficou?

— São cinquenta pence.

O Sr. Whitman não gostava da Fifi, mas gostava da esposa. Então acabava fazendo tudo o que ela pedia. Ele sempre pagava e dava uma gorjeta para Marçal.

— Pra comprar um sorvete quando estiver com a namorada.

— Muito obrigado, Sr. Whitman.

Marçal não tinha namorada, mas o Sr. Whitman não precisava saber disso.

Vez ou outra o Sr. Jordan também aparecia para comprar soja.

— Soja na sopa de ervilha fica uma delícia.

— Eu imagino, Sr. Jordan. O senhor quer levar mais alguma coisa?

— Hum, deixe-me pensar. Você ainda tem daqueles grãos de pimenta branca? Adoro grãos de pimenta branca na sopa de milho.

— Tenho sim, senhor. Vou pegar, só um momento.

Havia também seus amigos, Michael e Clark, que apareciam de vem em quando para comprar grãos de café.

— Então, Marçal, meu amigo. Quando deixará esse trabalho de maricas e fará algo de homem? — provocava Michael.

— Estou preparando algo grande, Michael. Você verá!

— Quando você se cansar dessa vida de dona de casa venha me procurar no meu escritório. Eu adoraria te dar um emprego como ajudante de cozinha — continuava a provocar Michael.

— Não ligue para ele — ponderava Clark —, mas quando você quiser crescer na vida, nos procure. Temos um bom emprego para você.

— Atrás de uma mesa contando quanto as pessoas ganharam e gastaram durante o ano? Não, muito obrigado. Estou realmente planejando algo grande em minha vida. Só esperando o momento certo.

— Não espere demais! — voltou a provocar Michael. — A vida passa muito rápido. É melhor ficar atrás de uma mesa ganhando milhões do que ficar atrás de um balcão ganhando tão pouco.

Michael tinha razão e Marçal sabia disso. Mas se ele largasse o emprego, sua mãe voltaria a pegar no seu pé. Naquela mesma noite, quando Marçal estava se preparando para fechar a venda, ele percebeu um movimento estranho na rua. Dois homens, vestidos de preto estavam andando de maneira bem estranha. Tudo muito esquisito. O bairro era tão tranquilo àquela hora da noite. Ele continuou fazendo suas tarefas e quando estava fechando a porta ouviu um grito:

— Socorro! Socorro!

A voz vinha de um apartamento que ficava em frente à venda. Marçal não pensou duas vezes. Subiu as escadarias e encontrou a Sra. Whitman aos prantos, sendo consolada pelo seu esposo.

— Sra. Whitman! A senhora está bem? Ouvi seus gritos e vim correndo.

Entre soluços e lágrimas ela começou a falar:

— Não estou nada bem! Fifi! Levaram a Fifi! Roubaram meu bebê! Oh, George, o que faremos agora?!

— Fique calma, querida. Logo ela estará aqui.

Marçal não estava entendendo muito bem o que estava acontecendo.

— Me perdoe, Sr. Whitman. Eu acho que não entendi direito. Levaram a Fifi? A cachorrinha da Sra. Whitman?

— Isso mesmo, rapaz. Dois homens vestidos de preto subiram as escadas, nos renderam e levaram a cachorrinha da minha esposa.

Marçal não acreditou. Ele havia visto os sujeitos na rua.

— Espere um pouco, Sr. Whitman. Eu os vi na rua. Vou ver se ainda consigo alcançá-los.

— Tome cuidado, ok?! Eles pareciam malucos.

E assim Marçal deixou o Sr. e Sra. Whitman, desceu as escadarias e começou a correr na direção que tinha visto os tais sujeitos. Após algumas quadras ele encontrou um beco e, nele, os sujeitos estavam conversando com uma fogueira acesa em uma lata de lixo entre eles. Marçal ficou escondido, apenas ouvindo os dois sujeitos conversando.

— E agora, John! O que faremos com essa cadela?

— Deixe-me pensar um pouco. Cale a boca dela.

Fifi estava dentro de uma gaiola e não parava de latir.

— A culpa é sua. Você a assustou. Vamos, John. O que faremos com ela?

— Eu não consigo pensar com ela latindo desse jeito. Dê um jeito nela, Peter, antes que eu dê.

Marçal não sabia a razão, mas sabia que precisava agir rápido. Ele não conseguia entender o porquê desses homens terem sequestrado uma cachorra, em vez da própria Sra. Whitman.

— Vamos pedir resgate, John. Você viu como a madame ficou toda nervosa quando pedimos a cachorra.

— Mas esse não era o combinado, Peter. Você sabe disso. Temos que dar um fim nela.

— Por quê? Ela parece tão inofensiva, pobrezinha. Bem que poderíamos ficar com ela, não é mesmo, John?!

— Cale a boca. E faça ela ficar calada. Vou ver se consigo fazer uma ligação.

Marçal observava tudo no escuro, mas decidiu que precisava agir. Ele viu quando um dos bandidos foi até um telefone público. Nesse mesmo momento, uma patrulha policial passava pela rua. Foi então que Marçal soube o que tinha que fazer. Correu até a viatura, parou o carro e disse:

— Por favor, eu preciso da ajuda de vocês, oficiais. Acabei de presenciar o sequestro de um cãozinho e sei onde ele está!

A conversa foi bem breve e, apesar dos policias acharem uma bobagem, decidiram ajudar Marçal no “resgaste” de Fifi. Juntos, os três voltaram para o beco e após um breve “Mãos para o alto! Aqui é a polícia”, Fifi foi resgatada e devolvida para sua verdadeira dona.

— Ah, Fifi! Fico tão feliz em poder revê-la! Minha querida. Meu amor.

— A senhora teve sorte dessa vez, madame. Já vimos casos em que o animal foi morto no local do crime — informou um dos policiais.

— Não fale isso! Não, Fifi! Está tudo bem agora. Você passou por um trauma muito grande. Mas, oficiais, os bandidos disseram a razão para terem sequestrado a pobre da Fifi?

— Disseram apenas que cumpriam ordens.

Marçal observava a cena com um grande interesse. O Sr. Whitman olhava desolado para a janela.

— Mas quem poderia fazer isso a Fifi? Quem poderia querer tanto mal a ela?

— O Sr. Whitman… — pensou em voz alta Marçal.

— Quem? George? Impossível.

— Sim! George. Seu esposo — continuou Marçal. — Ele odeia a Fifi e provavelmente pagou aqueles bandidos para sequestrarem ela.

— George? Isso é verdade? — indagou a Sra. Whitman!

Sem poder esconder seu desgosto, o Sr. Whitman esbravejou:

— Sim! É verdade. É tudo verdade!

— Oh, George! Como você pode?! Fifi é como nossa filha.

— Nossa filha?! Sua filha! Tudo aqui gira ao redor dessa cachorra imunda. “George, compre a melhor ração para Fifi”. “George, temos que levar Fifi ao veterinário. Pegue o carro”. “George, George, George”. Ah! Eu não aguento mais. Essa cachorra tem mais atenção nessa casa do que eu. E sou eu quem paga as contas.

A situação ficou feia durante os minutos que se seguiram. Para encurtarmos a história, basta você saber que George disse que a esposa deveria escolher entre ele e Fifi. No final das contas, George teve que se mudar para um hotel.

Marçal voltou aquela noite para casa com uma ideia.

— Eu bem que poderia… Nãooo! Siiiiim! Eu bem que poderia virar um detetive particular!

Essa ideia ficou em sua mente durante toda a noite e dia seguintes. Ele não tinha nenhum penny no bolso para investir na carreira de detetive particular, mas sabia quem tinha.

— Vamos, lá Clark! É só um empréstimo.

— Não, Marçal. Eu sinto muito. Minhas finanças têm um propósito e, por mais que eu ache essa sua ideia bem divertida, não posso investir em você.

— Mas, Clark. Eu estou querendo mudar de vida. E não quero que você me dê o dinheiro. Quero apenas que me empreste. Eu lhe devolverei com juros e correção, se for necessário.

Clark e Marçal eram amigos desde sempre. Os dois eram vizinhos e estudaram juntos. Quando foi a hora de entrar na Universidade, Clark optou por economia. Marçal não quis fazer faculdade. Clark se formou e abriu um escritório de contabilidade com Michael, seu primo e contador. Marçal foi trabalhar na venda como balconista. As coisas iam muito bem para Clark. As coisas iam… bem, você já sabe como as coisas estavam indo para Marçal.

— Vamos, lá Clark. Pelos velhos tempos.

— E de quanto estamos falando, Marçal?

— Cem libras.

— Você só pode estar maluco mesmo, Marçal.

De alguma forma milagrosa e impossível de ser explicada, Marçal conseguiu o dinheiro com Clark. Agora ele precisava achar um escritório e começar a trabalhar. Todos os escritórios em bons prédios já estavam sendo alugados, mas Marçal não perdeu as esperanças. Ele sabia que iria encontrar o lugar ideal.

Pense no seguinte. Durante alguns dias ele procurou em bairros nobres e nada. Depois decidiu tentar em bairros mais modestos e, nada. Afinal, acabou encontrando um quartinho em um prédio semiabandonado (semi porque a maioria das salas já eram depósitos de velharias) que precisava urgentemente de uma reforma. Com uma parte do empréstimo de Clark, Marçal comprou algumas latas de tinta, pintou ele mesmo as paredes. Encontrou uma mesa velha, porém muito boa (vantagem de estar em um prédio cheio de velharias), cadeiras e um arquivo velho. O resto é história… No fim das contas, precisou trocar a fiação, os canos e quase todo o carpete, que tinha um cheiro horrível. Mesmo assim ele estava animado. Mandou pintar na porta os seguintes dizeres: “Marçal Vastro. Detetive particular”. E tudo estava pronto! Seu escritório não era lá grande coisa, mas era o bastante. Ao entrar nele, podíamos ver uma pequena sala, com uma escrivaninha e um arquivo. Na porta mais ao fundo, podíamos ver a sala de Marçal, com a mesa que ele encontrara, algumas poltronas velhas e persianas surradas. Não era a decoração do ano, mas tinha um ar de mistério que deixou Marçal bem satisfeito.

Agora ele precisava esperar pelos clientes. E foi o que ele fez. Durante dois dias! No final do terceiro dia, quando ele já estava se preparando para fechar o escritório, a campainha tocou. Ele foi até a porta e quando abriu:

— Sim, em que posso te ajudar?

— Ah, desculpe incomodar. Mas é do escritório do detetive particular Marçal Vastro?

Era uma moça. Marçal ficou curioso. Ela devia ter uns vinte e dois, vinte e três anos. Era mais alta que ele e estava usando um vestido branco com bolinhas.

— Sim. É aqui. Quem é você?

— Ah, me desculpe. Deixe-me apresentar. Meu nome é Annie. Sou nova na cidade e estou procurando por emprego.

Minutos depois Annie e Marçal estavam em sua sala, fazendo uma entrevista. Marçal lia com atenção o currículo da moça.

— Aqui diz que você é formada em Biblioteconomia. É isso mesmo?

— Sim. Me formei na primavera passada.

— E como soube de mim? Quero dizer, quem te indicou?

— Eu vi um anúncio no jornal hoje de manhã.

— Anúncio? Que anúncio?

Annie mostrou um anúncio pequeno que dizia: “Procura-se jovem para trabalho como secretária em escritório de detetive. Interessadas comparecem ao endereço abaixo”.

Que estranho. Marçal não tinha feito nenhum anúncio. Devia ser coisa de Michael. Aquele sujeitinho. Ele iria se ver com Marçal depois.

— Bom, eu estava mesmo à procura de uma secretária. Mas os negócios estão em baixa, sabe como é…

— O senhor não se arrependerá em me contratar. Isso eu posso garantir.

— Não é bem esse o meu problema.

— Por favor! Eu preciso muito de um trabalho. Estou procurando a meses. Eu posso chegar cedo, sair tarde, fazer café, anotar telefonemas. Mas por favor, me dê uma oportunidade. Eu posso garantir que meu trabalho é impecável.

Marçal ficou com pena da moça e não aguentou.

— Tudo bem. Essa semana as coisas estão mesmo tranquilas. Acho que podemos fazer uma experiência. O que me diz?

— Ah, muito obrigada, Sr. Vastro.

— Por favor, me chame de Marçal.

— Ok. Sr. Marçal. E a que horas quer que eu esteja aqui amanhã?

— Amanhã? Não sei? Que horas você quer chegar aqui?

— Eu posso chegar às 7 horas, se o senhor quiser.

Marçal ficou assustado com a disposição de Annie.

— Às 7 horas? — perguntou Marçal assustado. — Melhor não. Você teria que sair muito cedo de casa… e eu também!

— O senhor tem razão, mas não acha que às 7 horas é melhor?

— Não! Às 8 horas está perfeito. Pode chegar aqui amanhã às 8 horas.

— Muito obrigada, Sr. Marçal. Muito obrigada mesmo.

— Por nada, Annie.

Marçal foi para casa naquele dia preocupado. Ele agora tinha um escritório e uma funcionária. Mas faltava alguma coisa. Ele precisava de clientes. Pensou em como poderia melhorar essa situação. Quando chegou em casa decidiu escrever um bilhete.

“Cara Sra. Whitman.

Espero sinceramente que Fifi esteja bem. Gostaria que a senhora viesse me visitar amanhã em meu novo escritório para que eu pudesse ver como sua cachorrinha está. Fraternalmente, Marçal Vastro.”

No que isso daria? Marçal não sabia. Mas ele precisava tentar. Mandou o bilhete por um menino e foi dormir.

— Amanhã será um novo dia cheio de novas oportunidades.

No dia seguinte Marçal acordou cedo, colocou sua melhor roupa (um velho terno de seu pai), colocou uma gravata nova, tomou um café rápido e antes de sair, ouviu:

— Marçal, agora você trabalha de terno na venda?

Puxa, durante todos esses dias Marçal não havia conversado com sua mãe. Após uma breve explicação de sua nova carreira, a reação de sua mãe foi a seguinte:

— Pois bem. Só saberei se você é um detetive de verdade se me ajudar a encontrar meus óculos!

Como não sabia se ela estava falando sério ou não, Marçal apenas foi embora. Correu até seu escritório e para sua surpresa, Annie já estava na porta esperando por ele.

— Bom dia, Sr. Marçal. Tudo bem?

— Bom dia, Annie. Está tudo bem sim. E com você? Chegou cedo, hein?

— Sim. Pois é. Não me aguentei de ansiedade. Precisava começar a trabalhar.

Marçal entrou com Annie no escritório e mostrou tudo (não que houvesse muito a ser mostrado). Ela logo se ambientou, sentou em sua mesa, tirou da bolsa um vaso com flores e um porta-retratos dela mesma em uma viagem que havia feito anos atrás para o México.

— Gosto de aventuras!

Sem muito para fazer, Marçal entrou em sua sala e ficou sentado ali. Quando Annie batia na porta, ele pegava um papel ou fingia que atendia um telefonema para que ela pensasse que ele estava muito ocupado.

— Sr. Marçal?

— Pois não, Annie?

— Está aí uma senhora que deseja falar com o senhor. A Sra. Whitman.

Marçal estava mais surpreso do que queria apresentar.

— Pois bem, deixe-a entrar.

— Não quer que eu a deixe esperando um pouco? Até o senhor terminar seu telefonema?

— Não, não — falou desligando o falso telefonema. — A Sra. Whitman é nossa melhor cliente, não podemos deixá-la esperando.

Quando a Sra. Whitman entrou na sala, estava acabada. Ela disse a Marçal que desde que o marido havia saído de casa, ela não conseguia mais ficar tranquila.

— Ontem, quando recebi seu bilhete dizendo para vir para cá, não tive dúvidas. Uma vez você ajudou a encontrar Fifi, acho que pode ajudar a encontrar George.

— Mas ele não está desaparecido, está? Pensei que estivesse hospedado em um hotel.

— Também pensei isso. Mas ontem eu liguei para todos os hotéis da cidade e em nenhum deles havia um George Whitman registrado. Eu preciso da sua ajuda, Sr. Marçal. Pago o que for necessário.

1º caso

Marçal ficou empolgado com a possibilidade de poder atuar como um detetive de verdade, em um caso de verdade. E ainda estaria sendo pago por isso. Tudo muito emocionante. Ele pegou algumas fotos com a Sra. Whitman, alguns contatos de amigos e logo estava na rua para poder pôr em prática sua profissão.

Primeiramente, ele foi até o hotel que o Sr. Whitman deveria estar hospedado. Após um breve flerte com a recepcionista ele concluiu que o Sr. Whitman nunca estivera ali.

— Quer dizer que ninguém chamado George Whitman se hospedou aqui?

— Não. Pelo menos não com esse nome.

— Por acaso esse homem não está aqui, está? — Mostrou a foto que a Sra. Whitman havia lhe entregado.

— Não, senhor. Talvez ele tenha vindo para o restaurante ou bar. Enfim, não posso reconhecer. Várias pessoas passam por aqui todos os dias.

— Sem problemas. Muito obrigado por tudo, Cindy.

— Sempre às ordens.

Marçal fez a mesma manobra em mais três hotéis e o resultado foi o mesmo. Nada do Sr. Whitman. Aquilo era curioso. Depois de comer um lanche rápido, ele voltou para o escritório.

— Ah, olá, Sr. Marçal.

— Olá, Annie. Tudo bem por aqui?

— Na verdade uma outra senhora apareceu aqui querendo falar com o senhor. Pediu que ligasse nesse número. — E entregou um papel para ele com um número anotado.

— Certo. Obrigado. Farei isso.

— E um senhor também veio aqui procurando pelo senhor.

— Ah é? Quem?

— Michael Smith. Disse que queria muito conversar com o senhor.

Michael! Será que até ali ele iria provocar Marçal?

— Obrigado, Annie. Agora no período da tarde ficarei aqui no escritório.

— Alguma novidade em relação ao Sr. Whitman?

— Ainda não. Mas as investigações começaram agora. Então vamos esperar.

Marçal foi para sua sala e ligou para o número anotado no papel. Tratava-se da Sra. Megan. Ela era amiga da Sra. Whitman e estava muito empolgada em falar com Marçal.

— Sr. Vastro. O senhor precisa entender… eu… estou preocupada… já faz alguns meses que venho ouvindo um barulho estranho em meu sótão.

2º Caso

Durante quinze minutos a Sra. Megan só falou. Falou e falou. Marçal ouviu tudo pacientemente. Ela vinha ouvindo barulhos no sótão de sua casa e achava que haviam ladrões lá.

— Veja bem, Sr. Vastro. Somos apenas eu e minha dama de companhia. Não temos mais ninguém. Será que o senhor poderia dar uma olhada e tentar descobrir o que está acontecendo?

— Claro, Sra. Megan. A que horas a senhora quer que eu esteja aí?

— Precisa ser de noite. Os barulhos só acontecem à noite.

Naquela mesma noite, após fechar o escritório, Marçal foi até a casa da Sra. Megan. Quando chegou, ela mostrou o caminho para o sótão e pediu que ele fosse verificar o que estava acontecendo. Marçal não ouvia barulho algum, então decidiu se esconder atrás de alguns móveis mais antigos. Durante quase toda a noite ele ficou ali, esperando… nada acontecia. Lá pelas duas da madrugada, cansado, com fome e sono, Marçal começou a ouvir pequenos ruídos. Ele estava com um pouco de medo de olhar o que fazia aquele barulho, mas percebeu que era para isso que ele estava ali. Ele pegou então um pedaço de madeira que estava no chão e se preparou para o pior. Respirou fundo, seu coração pulsava com uma velocidade incrível. Ele podia ouvir sua respiração e o suor descia por sua testa. Aquele era o momento. Era tudo ou nada. Os ruídos começaram a ficar mais altos e foi nesse momento que Marçal virou e, quando estava pronto para atacar, ele viu. Era um gato! Apenas um gato.

Após capturar o gato, Marçal acordou a Sra. Megan, que ficou agradecida por não ser um ladrão ou sequestrador.

— Esse gato é da senhora?

— Na verdade não. Mas ele é tão simpático que acho que ficarei com ele. O pobrezinho parece faminto.

Mulheres e seus animais. Marçal encerrou ali seu caso. A Sra. Megan pagou seus honorários (que não eram altos) e ele foi para casa. Dormiu até tarde naquele dia. E se sua mãe não o tivesse acordado, provavelmente teria dormido o dia inteiro.

— Marçal, vamos lá meu filho. Você não vai trabalhar? Não tem gatos e cachorros para salvar? — disse rindo da situação.

— Mãe! Eu vou trabalhar. Só preciso descansar mais um pouco. Estive trabalhando em um caso até tarde ontem à noite.

— Sei! Ainda com esse papo de detetive. Eu sinceramente espero que você não perca seu trabalho na venda. Por acaso você viu os meus óculos?

— Não, mãe.

Naquela tarde, Marçal foi até o escritório. Annie havia comprado algumas cortinas para a recepção e estava terminando de pendurá-las.

— Ficou mais bonito assim, não?

— Sim. — “Coisas de mulher,” pensou Marçal. — Alguma coisa para mim?

— A Sra. Whitman ligou perguntando se o senhor tem alguma novidade em relação ao caso dela?

— Ok. Mais alguma coisa?

— Tem um homem esperando pelo senhor em sua sala.

— Um homem?

— Sim.

— Ele disse o que queria?

— Disse que era um antigo amigo seu. Clark, eu acho.

Marçal entrou na sala e logo foi cumprimentando seu amigo. Clark estava surpreso com tudo o que Marçal tinha feito.

— Tenho que dizer que não estava pondo fé em você.

— Mas eu disse, Clark. Disse que faria valer seu investimento. Gostou do lugar?

— Na verdade, não. Parece abandonado e sem classe. A sua cara, Marçal. A sua cara.

— Obrigado. Quer alguma coisa? Um café, uma água?

— Sim, por favor.

Enquanto Marçal servia o amigo com uma xícara de café, percebeu que este estava um tanto quanto nervoso.

— Algum problema, Clark?

— Perdão? Problema? Não. Quero dizer, sim. Mais ou menos.

— O que foi? Posso ajudá-lo?

— Na verdade eu vim aqui para isso. Sabe, Marçal, a novidade de ter um detetive por aí está rolando. Poucas pessoas estão pondo fé, mas a verdade é que quando as notícias boca-a-boca acontecem, as pessoas ficam conhecidas.

— Não estou entendendo.

— Sei que você está ajudando senhorinhas com seus animais, e tal…

— Na verdade estou no meio de um caso de desaparecimento.

— Nossa! Que legal! — Clark realmente parecia surpreso. — Mas não é por isso que estou aqui. Estou precisando dos seus serviços. E se você puder me ajudar, eu prometo que a sua dívida comigo estará paga.

— Mas são cem libras, Clark. Não existe caso algum que possa pagar essa dívida.

— Me escute. Há alguns meses, Michael e eu fomos contratados por um empresário italiano que mora em Londres há anos. Ele se achava o novo Al Capone do pedaço. Tem centenas de negócios por aí e estava procurando por um escritório de contabilidade para colocar algumas contas em dia. O cliente era bom. O pagamento também. Bom, eu sempre estive um pouco desconfiado da origem do dinheiro do meu cliente, mas Michael estava certo que depois dele, poderíamos desacelerar nosso trabalho. Aproveitar mais a vida.

— Sei. E então?

— Acontece que eu descobri algumas fraudes no imposto de renda dele. Tentei conversar com o Michael, mas ele achou que eu estava exagerando. Eu fiquei assustado, porque acho que nosso cliente é na verdade um mafioso.

— Pode me dizer o nome dele?

— Na verdade, não. Quero primeiro que você aceite o caso.

— Mas o que você quer exatamente que eu faça, Clark?

— Quero que você investigue o caso e descubra se meu cliente é um mafioso ou não.

— E se ele for?

— Terei de contatar as autoridades.

— Preciso pensar um pouco sobre o assunto, Clark. Eu costumo atender a casos menores.

— Como desaparecimento de cães? — ironizou Clark.

— Isso. Como desaparecimentos de cães.

— Preste atenção, Marçal. Essa é uma oportunidade única e real. Se você realmente quer mudar de vida, essa é a hora. Preciso que você me ajude. Eu temo por minha segurança.

— Sua esposa sabe disso?

— Sobre os negócios? Elizabeth não sabe de nada. Ela fica em casa cuidando das nossas coisas. Apenas isso.

— E esse seu cliente desconfia que você saiba de algo?

— Na verdade, não sei. Tenho evitado seus telefonemas. Prefiro que Michael trate com ele.

— Ok, Clark. Vou ajudá-lo. Mas antes, preciso que me dê o nome do seu cliente.

— Pois bem. Victor Ponzi é empresário da cidade de Londres. Ele é dono de vários restaurantes italianos. Anda sempre com vários seguranças. O chefe dos seguranças é seu irmão, Mário Ponzi. É casado e tem três filhos. Ele nos contratou depois que o governo começou a investigar suas declarações de imposto de renda. Ele nos procurou e disse que tudo era legal. Mas quando olhamos suas receitas, o negócio limpo dele não começou a fazer muito sentido. Ele começou a dificultar nosso trabalho e não gostou nada quando eu disse que talvez teríamos que encerrar nosso trabalho com ele. Ele está preocupado com suas posses, disse que nossas preocupações não são necessárias e que nem todos os negócios precisam ser descobertos. Começou a nos ameaçar. Nada explícito. Mas tudo bem assustador. Me entenda, Marçal, eu sou casado. Elizabeth está grávida. Não posso arriscar nossa segurança.

— Muito bem, Clark. Amanhã eu começarei as investigações. Espero que você me ajude em tudo o que for necessário.

— Obrigado, Marçal. Ah, só mais uma coisa. Michael não pode saber de nada disso.

— Ok. Ele não saberá, mas espero que não me atrapalhe.

Clark saiu do escritório mais aliviado.

— Annie, tem planos para hoje à noite?

— Na verdade, não senhor.

— Quer jantar comigo? Restaurante italiano!

3º Caso

Marçal e Annie foram jantar em um dos restaurantes de Victor. O ambiente era bem agradável. O restaurante estava lotado. Era possível ouvir as pessoas rindo, a música tocando… E para a surpresa de todos, Victor Ponzi estava presente naquela noite. Marçal entrou no restaurante com Annie e sentou-se perto do empresário. Queria começar a observar naquele mesmo instante.

— Então, Sr. Marçal, por que o senhor me chamou para jantar?

— Porque estamos comemorando.

— Comemorando o quê?

— Nosso maior e melhor caso.

— Estamos aqui a trabalho?

— Eu estou aqui trabalhando. Estou investigando um suposto mafioso italiano. O dono deste restaurante — disse apontando para Victor. — Ele é nosso alvo.

— Então esse é um caso sério, hein? Mas podemos comer, não é?

— Mas é claro. Peça o que quiser.

Quando o garçom chegou, Marçal e Annie fizeram seus pedidos.

— Gostaria de mais alguma coisa senhor?

— Sim. Apenas uma dúvida. Aquele é o dono do restaurante?

— Sim. Ele mesmo. Sr. Victor Ponzi.

— Será que eu poderia cumprimentá-lo?

— Pois não, senhor.

— Com licença, Annie. Vou ali cumprimentar nosso anfitrião.

Marçal dirigiu-se até Victor Ponzi.

— Sr. Ponzi?

?

— Sr. Ponzi. Meu nome é Marçal Vastro. Sou um grande admirador do senhor.

— Admirador? Meu? Oras, por que meu rapaz?

— Acho impressionante alguém conseguir administrar um restaurante. Mas administrar vários é incrível.

O Sr. Ponzi sorriu e mostrou-se aberto a conversar. Ele parecia muito simpático. Logo, Marçal estava sentado ao seu lado.

— Sabe, Sr. Ponzi…

— Victor. Me chame de Victor.

— Ok. Sabe, Victor. Eu também venho de uma família italiana. Meu pai era filho de italianos. E eu sei como é se passar por mafioso.

— Perdão? Mafioso? Não estou entendendo o que você está querendo dizer.

Marçal havia ganhado a atenção não só de Victor Ponzi, mas de todos os seus seguranças.

— Bom. Eu sei que o senhor deve passar por isso, certo? Ser um italiano bem-sucedido em outro país gera comentários. As pessoas são maldosas e não sabem diferenciar sucesso de negócios sujos.

— Acho que sim. Na verdade, não estou entendendo o que você está querendo dizer, meu rapaz. Você me conhece?

— Bom, já ouvi falar algo sobre seus negócios. Tudo extraoficial, é claro. Eu sou novo por aqui e gostaria de saber como os negócios funcionam.

— Acho que você deve estar me confundindo. Tenho um negócio legal. Aliás, tenho vários negócios legais. O senhor pode perguntar ao meu contador.

— Ah, pode deixar. Eu farei isso.

Marçal sabia que estava entrando em um campo minado, mas tudo era tão emocionante. A adrenalina em seu corpo estava a toda e ele não queria parar.

— Meu jovem, tenho alguns compromissos inadiáveis agora. Espero que esteja aproveitando sua refeição com aquela bela jovem.

— Estamos sim. Desculpe se incomodei o senhor. Tenha uma boa noite.

Durante o resto do jantar, Marçal e Annie tiveram uma noite agradável. Comeram seu jantar, seguido de sobremesa e terminaram com uma xícara de café.

— Está ficando bem tarde, Sr. Marçal.

— Verdade, Annie. Amanhã eu deixo você chegar um pouco mais tarde no escritório. Tenho poucos casos e posso descansar um pouco.

— Ótimo. Quero passar na floricultura antes e comprar flores para minha mesa. Quem sabe alguns bombons.

Marçal pagou a conta e levou Annie até seu apartamento.

— Tenha uma boa noite, Annie.

— O senhor também. Obrigada pelo jantar, Sr. Marçal. Foi uma noite agradável.

Marçal voltou para casa e encontrou sua mãe dormindo no sofá com a televisão ligada.

— Mamãe?! Mamãe?! Já cheguei. A senhora pode ir para a cama.

— Ah?! Ok… Marçal, meu filho. Você viu os meus óculos?

— Não, mamãe; eu não vi. Acho melhor a senhora mandar fazer um novo par.

— Eu farei. Eu farei.

No dia seguinte, Marçal acordou mais tarde, arrumou-se, tomou café e foi até o escritório. Ao chegar lá, Annie ainda não havia chegado. Como ele tinha dito que ela poderia chegar mais tarde, achou tudo normal.

Arrumou alguns papéis no escritório e decidiu que, antes de investigar Victor Ponzi, ele precisaria saber mais algumas informações sobre os negócios dele. Ligou para seu amigo Clark e pediu alguns endereços.

— Você realmente está virando um detetive, hein Marçal?

— Faço o que posso, meu amigo. Você tem alguma notícia sobre Victor?

— Não. Hoje à tarde temos uma reunião com ele. Se acontecer algo de extraordinário, eu te informo.

— Ok, tenho outro assunto para resolver. Qualquer coisa me mande um recado ou tente falar com minha secretária, Annie.

— Sem problemas, Marçal. Até mais.

Além de Victor Ponzi, Marçal precisava focar em seu antigo caso. O Sr. George Whitman já estava desaparecido havia pelo menos duas semanas. Marçal não fazia ideia do que teria acontecido com ele!

Ele tinha que ter foco. Após algumas andanças, Marçal tinha apenas uma pista. Depois que George Whitman tinha saído da casa de sua esposa, ele havia se hospedado no Gran Palace. Depois de quatro dias, havia feito o check-out e desaparecido. Com dinheiro no bolso, George Whitman poderia ter ido para qualquer lugar.

— Mas que situação mais chata. Sumir por causa de um cachorro! Isso não faz o menor sentido.

Marçal foi visitar a Sra. Whitman. Ele ligou algumas vezes para seu escritório, na tentativa de falar com Annie, mas o telefone só chamava.

A Sra. Whitman parecia muito abatida quando o recebeu em casa.

— Perdoe-me pela visita inesperada, Sra. Whitman. Mas preciso colher mais algumas informações sobre seu esposo.

— O que for necessário.

— Eu preciso saber se o Sr. Whitman tem irmãos, amigos ou conhecidos aqui na cidade.

— Sim, ele tem um irmão, Bruce. Mas eles não se falam há muitos anos. Duvido que George esteja com ele.

— E por acaso a senhora tentou contato com esse irmão?

— Nem pensei nisso. Como disse, George cortou relações com seu irmão por causa de uma antiga namorada.

Marçal tinha certeza que George estava com Bruce. Agora só precisava descobrir se suas suspeitas eram reais.

— Muito obrigado, Sra. Whitman. Assim que eu tiver alguma notícia, entro em contato.

Após sair da casa da Sra. Whitman, imediatamente Marçal procurou por Bruce Whitman. Acabou encontrando uma dúzia. Demorou um pouco até encontrar o número do Bruce certo. Telefonou. A conversa foi franca e rápida: George Whitman precisava voltar para casa.

— Mas quem falou que meu irmão George está aqui? Não nos falamos há muito tempo.

— Sr. Whitman, sinceramente, eu sei que está mentindo. Sei que George Whitman está aí. Não quero forçá-lo a nada. Só espero que ele tenha o bom senso de voltar para sua esposa e esqueça toda essa história de cachorros. A Sra. Whitman está preocupada com ele e quer ele em casa. Por favor, passe o recado a ele. Eu não tenho mais nada a falar. Passar bem.

Não havia mais nada que Marçal pudesse fazer. Já eram quase quatro horas da tarde quando Marçal voltou para o escritório. Annie ainda não tinha aparecido. Isso começou a deixá-lo extremamente preocupado. Tentou falar com ela, ligando para sua casa e nada.

— Vai ver está doente. Vou deixá-la descansar. Amanhã estará por aqui, com certeza.

Naquela noite foi para casa e comeu o jantar quieto. Ajudou sua mãe com a louça e foi deitar-se. Algo dentro de si não estava certo. Mas ele não sabia o que era.

No dia seguinte, assim que chegou ao escritório percebeu que Annie ainda não havia aparecido. Mas havia um envelope na porta. Era da Sra. Whitman.

“Caro Sr. Vastro,

Ontem à noite meu esposo George me telefonou e disse que está muito arrependido do que fez. Sabe que Fifi é como a filha que nunca tive e acredita que podemos recomeçar. Eu queria agradecer muito ao senhor pessoalmente, mas a verdade é que estou indo encontrá-lo, e sem a Fifi.

Muito obrigada.

PS.: Coloquei junto com esse bilhete seus honorários. Muito obrigada.”

Marçal estava aliviado. Mais um caso para a conta. Como detetive, Marçal estava tendo um grande sucesso. Agora ele precisava saber o que estava acontecendo com Annie.

Ele foi até a casa dela, tocou a campainha algumas vezes e não teve sucesso. Bateu na porta, na janela, foi até a porta dos fundos, mas Annie não respondia.

“Muito estranho,” pensou Marçal. “Annie parece ser tão responsável. Só pode ter acontecido algo.”

Ao voltar para o escritório, Marçal faz algumas ligações e descobriu que Victor Ponzi era pior do que um mafioso comum. Ele sempre tinha sido muito discreto, mas como não existe crime perfeito, a polícia já estava em sua cola. Seu nome estava envolvido em mais de uma dúzia de processos contra seus restaurantes. Tudo era muito bem feito. Mas Marçal sabia que a coisa não era tão simples. Por volta das 17 horas recebeu a visita de Clark.

— Marçal, desculpe-me vir sem avisar. Mas acho que temos problemas.

— O que aconteceu, Clark?

— Ontem, durante a reunião com Victor Ponzi, percebi que ele estava me olhando diferente. Depois da reunião, ele me chamou e perguntou se eu conhecia alguma moça chamada Annie. Eu disse que não, que não conhecia nenhuma moça com esse nome. Mas sabe? Depois disso, lembrei-me que sua secretária se chama Annie, não é mesmo?

— Sim, isso mesmo.

— Marçal, acredito que ela esteja com problemas. Por acaso ela está por aqui?

— Há dois dias que Annie não aparece aqui, Clark.

CONTINUA… (com outro autor)

Carol Simão
Ábaco de letras | contando estórias