O batom e as flores de Van Gogh

— Essa porcaria era para parecer sexy, não pra me fazer parecer um rascunho mal-acabado das telas de Van Gogh!!!

Foi exatamente isso que a moça disse em frente ao espelho, encurvada pra se ver mais de perto.

Eu não fazia ideia do que era o tal de Van Gogh. Lembro que quando cheguei em casa, peguei um papel e escrevi pra não esquecer de perguntá pro neto. Mas o neto dorme cedo e tive que esperá até o outro dia.

— Vã Góggi. Foi esse o nome que a moça falou ontem no banheiro, fio. Acha na internet pra vó vê o que é.

E foi aí que vi pela primeira vez aquele monte de pintura forte e diferente. Eu achei feio. Dizem que a gente tem que achar bonito pra parecer chique, mas eu limpo banheiro então posso ser sincera: era feio demais. Já fiz coisa mais bonita quando era criança na aula de arte, na terceira série. Depois tive que pará de estudá, mas tudo bem. A vida ensina um montão de coisa pra gente fora da escola também. Mas sim, realmente, a cor do batom da moça parecia mesmo de uma flor que o moço pintou.

Devia ser uma moça bem-educada pra sabê esses nome de artista diferente. Artista mesmo só conheço o Romero Britto, com dois “t”. Tenho um estojo com o nome dele. Comprei no bazar da Rute. Acho lindo.

É bem difícil eu esquecê essa história porque era o dia do aniversário da minha filha e eu tava doida pra sair do trabalho e ir comer bolo com ela no outro lado da cidade, e a moça não saia da frente do espelho. Passou os dedos na boca umas três vez para diminuir o batom.

Num falei nada, você sabe, a gente que limpa lugar como aquele tem que ser invisível. Só pode olhar e limpar. E servir, caso alguém peça alguma coisa. Mas eu achei que aquele batom era muito bonito. O que achei feio foi o salto que a fazia parecer uma bêbada recém-saída do bar.

— Que merda! Andar com isso me dói a alma!; e ainda me faz parecer um travesti em processo de aprendizagem! Nunca mais ouço aquela idiota da Marcele! — murmurou a moça.

E eu ri.

Baixinho, mas ri.

Ela realmente parecia um travesti.

Vi tanta mulher como ela… mulher preocupada com o que os outro vão achar, sabe? Moça cheia de mau humor porque não sabe se ficou bonita. Depois, quando sai do banheiro bota um sorriso na cara e finge que tudo tá bem.

Eu sei que não tá.

Algumas até chora. Outras ficam com tanta raiva que sentam na pia grande do banheiro só pra esperar a raiva passá ou levam as amiga pra dentro do banheiro pra perguntar se a roupa tá boa, se tá cheirando bem. Essas coisas.

Como tudo naquela moça parecia ser novo, acho que ela tinha gasto muito dinheiro praquele passeio. Uns cem, duzentos reais. Ou até mais. Essas menina faz loucura pra achar marido ou alguém pra dizê que ama elas. Nem que seja só por uma noite.

Quando vi a moça sair e ensaiar os primeiro passo fora do banheiro é que foi minha decepção. Ela foi encontrar o moço das “quatro lata”. Lá no bar ele tem esse apelido porque consome quatro lata de cerveja antes de tirar as moça do bar. Tá lá quase toda semana e sempre com uma diferente.

Pena que sô invisível. Senão eu ia lá contá pra ela que ele não valia aquele esforço todo. Que ela podia tirá os sapato e devolvê toda aquela roupa antes que sujasse.

Quem sabe ela num dava aquele batom cor das flor de Van Gogh pra mim?

Luciana Leitão
@RabiscosDaLu
Ábaco de letras | contando estórias