Contra-diario

Comeco agora o meu contra-diario!

Querido oiraiD,

eu sei que, pela regra da reforma ortografica, esse hifen depois do “contra” nao deveria estar ai, mas que se dane a regra. Como voce vera ao longo dessas paginas, estou meio que abandonando todos os padroes e este eh o menor deles.

Deixe-me comecar explicando o que eh voce:

  • Apesar do nome, nao espere que eu te visite diariamente. Virei quando eu precisar. Voce eh meu, nao o contrario.
  • Meu objetivo com voce eh relatar coisas que eu nao fiz ou nao aconteceram. Pode ser que, vez ou outra, as coisas se misturem um pouco, e nao vou te avisar quando isso acontecer. Mas lembre-se: voce nao se chama “contra” a toa.
  • Nao leve tudo a serio nem me cobre coerencia. Prometo que vou tentar fazer o mesmo.

A inspiracao para este contra-diario surgiu numa dessas noites em claro em que a mente vagueia sem rumo por lugares nunca dantes navegados. Na manha seguinte, fiquei tentando pensar de onde podem ter surgido tais ideias e acho que devo dar alguns creditos, mesmo sem saber ao certo se foram eles os responsaveis por esta loucura.

  • Obrigado, Mauricio, por comemorar por anos a fio contra-aniversarios. Talvez voce nao saiba quem sou eu, mas com certeza eu sei quem eh voce.
  • Obrigado ao blog “Livros só mudam pessoas” por este post.
  • Obrigado, Netflix, pelos filmes Na natureza selvagem, Maidentrip e Transpatagonia.
  • Obrigado, Robert Zemeckis, pelo belissimo Forrest Gump.
  • Obrigado, Joao Guimaraes Rosa, pelo conto “A terceira margem do rio” que li ha alguns meses neste livro.
  • Obrigado, Lourenco Mutarelli, pelo livro O grifo de Abdera.
  • Alias, obrigado, Vilto Reis, do site “Homo Literatus”, por este video em que voce me apresentou o Mutarelli. Talvez voce tambem nao saiba quem sou eu, mas com certeza eu sei quem eh voce.

Pronto. Agora acho que posso comecar.

Antes de mais nada, eh necessario deixar claro que nao estou sacaneando ninguem. Na mesma semana em que finalmente quitei meu apartamento, perdi minha esposa. Perdi meu chao. Perdi meu tudo. Talvez tenha perdido junto a sanidade. Entao, entenda que, se eu fizer o que pretendo, nao estarei abandonando nem sacaneando ninguem. Eu serei o unico prejudicado se tudo der errado. Portanto, me julgue por qualquer coisa, menos por isso, pois, pela primeira vez na vida sinto-me realmente sozinho.

Acabei de me dar conta de que talvez voce esteja pensando que pretendo me matar. Nada disso! Suicidio eh para os fracos e covardes e isso eh uma coisa que eu nunca fui nem nunca serei. Alem do mais, quem diabos comeca um diario pensando em se matar?

O que pretendo fazer eh me despojar. A proximidade da morte e a subita solidao me acordaram para o obvio: tenho muita coisa que nao preciso e essas coisas estao me matando. Portanto, vou me desfazer delas!

Nao sei bem como se dara a ordem dos eventos, mas pretendo vender o meu carro, alugar meu apartamento quitado para ter uma renda fixa e nao acabar como um mendigo, comprar uma boa bicicleta, provavelmente com um bike trailer, mochila, barraca de camping,… e sumir!

Pra terminar o relato de hoje, olha so o que me aconteceu. Devo estar entre os 10% das pessoas (talvez menos) que apertam o botao de travessia de pedestres e realmente espera o verde antes de atravessar a rua, mesmo que nao venha carro e que demore uns dois minutos. Pois hoje nao foi diferente.

Eis que numa das esquinas da vida havia um carro branco de vidros abertos conduzido por um homem. Assim como eu — talvez nao tao tranquilo —, ele esperava o semaforo abrir. Porem, o semaforo abriu para mim primeiro. Eu andei; ele acelerou.

Juro que a unica coisa que fiz, enquanto continuava a travessia, foi abrir bem os bracos, paralelos ao chao e com as palmas para o ceu. Tambem juro que nem olhei para o homem, que continuou a acelerar, passando atras de mim enquanto dava seu pedido de desculpas:

— Vai tomar no cu, cara!

E terminei minha travessia pensando: “Brasil!

André Barsottini
@andrebarsottini
Ábaco de letras | contando estórias