Nyna

Eu tinha quatorze anos quando tudo aconteceu. Lembro-me bem que durante meses nós ouvimos rumores sobre uma possível guerra, sobre separação entre judeus e não judeus. Ouvimos falar a respeito de um homem que durante anos tentou destruir nações inteiras. Agora ele estava finalmente conseguindo.

Naquela noite estávamos todos sentados jantando quando ouvimos no rádio que a Guerra seria inevitável.

“Isso é inaceitável! Não podemos deixar que eles simplesmente invadam nosso país, nossos lares.”

“Stefan! Meu filho. Não quero saber de assuntos de guerra nesta mesa.”

“Mas papa! Não podemos ficar aqui apenas olhando. Temos que agir. Isso é inaceitável.”

“Stefan! Já te disse. Não quero ouvir nada a respeito desse assunto.”

Meu irmão Stefan tinha dezoito anos e como já havia terminado o colégio, sempre que podia, ia até a cidade para debater a respeito do que estava na moda: Morte aos judeus. Meu pai não gostava nada desse assunto. Ele sempre nos ensinou que devíamos amar a Deus e que um dia nosso Salvador voltaria para nos levar. Stefan estava se tornando um homem com opinião, e esse fato não agradava muita gente. Minha mãe era uma mulher que não se expressava muito. Ela era bastante calada.

“Stefan, Józef, por favor, não briguem durante a refeição. Vamos ter paz, pelo menos nesta mesa.”

Morávamos perto de Varsóvia, em uma pequena vila. Meus irmãos e eu havíamos nascido em uma casa aconchegante que meu próprio pai construiu durante anos. Na vila havia mais nove casas além da nossa e conhecíamos todos os nossos vizinhos. Eram famílias polonesas. Meu pai trabalhava em uma fábrica de tecido juntamente com a maioria dos pais do nosso bairro e minha mãe ficava em casa cuidando de tudo e todos. Eles estavam casados há quase vinte e um anos. Tiveram três filhos: Stefan, o único menino; Edyta e eu, Katanyna — mas todos me conheciam como Nyna. Meus pais, Józef e Irena, eram pessoas maravilhosas, trabalhadoras, honestas, cristãos. Ensinaram aos seus filhos todos os bons princípios. Devíamos obedecer aos mais velhos, ler a Bíblia todos os dias, e orar antes das refeições e antes de dormir. Tínhamos uma vida simples, mas muito boa.

Na vila em que morávamos, eu tinha um amigo da mesma idade, Nikolai Kowalak. Ele era o filho do reverendo da nossa Comunidade e meu melhor amigo. Nossas casas compartilhavam o mesmo quintal e não me lembro do dia em que Nikolai e eu fomos apresentados. Toda minha vida eu o conhecia e ele a mim. No colégio nós éramos inseparáveis, na Igreja sentávamos sempre no mesmo banco. Nas aulas de piano ou na Escola Dominical. Onde um estava o outro também estava. Sempre tinha sido assim e eu esperava que sempre seria. Nossos pais também eram muito amigos. Sempre que a Sra. Kowalak assava um pernil ou cabrito, nos convidada para jantar. “É muita carne para apenas três pessoas, não acha, Nyna?!” O Reverendo e ela só tinham Nikolai e então sempre sobrava muita comida. Sempre que mamãe fazia sua torta de chocolate ou o bolo especial de banana, levávamos um extra para eles. Naquela noite não tinha sido diferente, então depois do jantar fui até a casa de Nikolai para entregar a torta extra de mamãe.

Eu nunca entrava pela porta, era sempre pela janela do quarto de Nikolai. Meu quarto ficava no andar de cima de nossa casa e tinha muitas coisas jogadas no chão, mas o quarto de Nikolai era muito organizado. Ele vivia dizendo que para pensar melhor ele precisava ter tudo em ordem. Esse era o Nikolai. Meu grande amigo.

“Oi, Nik. Tudo bem?”

“Oi, Nyna. Entra. Mamãe fez bolo de carne. Ainda temos. Quer um pouco?”

“Não. Eu trouxe torta de chocolate para vocês.”

“Parece ótima.”

“O que você está fazendo? Que papéis são esses?”

“Ah. São coisas do papai. Eu estava mexendo no seu gabinete hoje à tarde e achei isso. São passaportes.”

“Vocês vão viajar por acaso? A gente nem está de férias ainda, Nikolai.”

“Não sei. Por isso trouxe para cá. Queria investigar. Mas não entendi nada.”

“E seu pai não vai ficar bravo?”

“Só se ele descobrir.”

Nikolai era muito inteligente, mas era muito danado. Fiquei ali uns instantes olhando para sua pilha de livros. Como alguém tão novo já tinha lido tanto? Depois de um tempo sem que ele falasse comigo, decidi entregar a torta antes que meus pais sentissem muito minha falta.

“Boa noite, Reverendo. Boa noite, Sra. Kowalak. Vim trazer uma torta de chocolate que mamãe fez!”

“Ah! Obrigado, Nyna. Gostamos muito dos bolos que sua mãe faz,” disse a Sra. Kowalak. “Eu preparei um pouco de bolo de carne, gostaria de levar um pouco?”

“Não, muito obrigada.”

“Tudo bem, Nyna?! Você está com uma cara estranha. Aconteceu alguma coisa?” perguntou o Reverendo.

“Não é nada demais, Reverendo. É que ouvimos hoje na rádio que a Guerra será inevitável e o Stefan… bom, ele e papai discutiram na hora do jantar sobre isso.”

“Hum. Entendo. É. Esse é um assunto muito delicado. Mas seu irmão ainda está com aquelas ideias?”

“Não sei não. Papai o proibiu de ir naquele bar horrível, disse que ele não tem que se meter com toda essa bagunça e que o Governo é quem deve se preocupar. Não nós.”

Meu irmão Stefan acreditava que poderia fazer a diferença se se alistasse no exército Polonês. O que mais temíamos era que toda a história sobre Nazismo atingisse nosso país. Não éramos judeus, mas conhecíamos muitos judeus em nosso bairro e todo o ódio que estava sendo pregado contra eles um dia iria dominar o Mundo. Meus pais não queriam que Stefan fizesse isso, queriam apenas que tudo passasse.

“Bom, eu tenho que ir. Trouxe apenas o bolo para vocês.”

“Obrigado, Nyna. E não se preocupe. Tudo se resolverá.”

No dia seguinte, após o colégio, eu cheguei em casa e ouvi quando a mamãe ligou o rádio na estação de Notícias.

“Estejam preparados para o pior. A situação está insustentável. Não existem limites para as tropas alemãs. É certo que mais cedo ou mais tarde elas atacarão Varsóvia, Cracóvia e talvez o país inteiro.”

“Irena, por favor, desligue esse rádio.”

“Mas, Józef, eu só estava ouvindo as notícias e…”

“Não quero saber sobre mais nada. Não quero ouvir ou ver nada sobre essa Guerra maldita que estão querendo fazer.”

Meus pais não perceberam minha presença na cozinha, então eu fiquei atrás da porta ouvindo a conversa mais um pouco.

“Eu estou preocupada, Józef. Hoje você já foi mandado para casa. Como faremos?”

“Não sei, querida. As coisas na fábrica não estão nada boas. Amanhã vou voltar para lá, mas a possibilidade de me mandarem novamente para casa é muito grande.”

“Józef, não podemos mais fingir que nada está acontecendo. Que esse homem maldito não está fazendo planos. Ele é um agitador. Dizem que muito poloneses estão do lado dele. E que muitos outros estão escondendo judeus em casa antes que o pior aconteça.”

“Eu sei. Só não quero que, principalmente o Stefan, ouça essas coisas e tenha mais ideias.”

“Você não pode impedir seu filho de lutar por algo que ele acredita. Nós o ensinamos a pensar com a própria cabeça. A andar com as próprias pernas.”

“Mas nós dois sabemos o que acontecerá se ele for para o exército, não é, Irena? Ele vai morrer! Ele vai morrer!”

Aquelas palavras fizeram meu coração pular. Morrer? Ninguém nunca tinha falado nada sobre morte. Será que o Stefan não sabia que ele poderia morrer se fosse para a Guerra? Quer dizer, eu já havia lido sobre algumas guerras, mas sabia que muitos soldados não precisavam nem ir para os campos de batalha. Eu saí correndo e fui até o quintal dos fundos, precisava conversar com o Nikolai.

“Nik! Nik! Nikolai! Você está aí?”

“Sim, estou. O que foi, Nyna?”

“Nik. Eu não quero mais saber sobre essa Guerra. Você sabe o que pode acontecer se Stefan for para o exército? Ele pode morrer. Eu estou com medo. Eu quero que esse homem, Adolf, morra!”

“Calma, Nyna. O que aconteceu? Ninguém vai morrer. Seu irmão não vai desobedecer seu pai. Entra aqui.”

“Mas eu ouvi meus pais conversando na cozinha. Se Stefan se alistar, ele vai morrer.”

“Calma. Tenha calma. Tudo vai acabar bem.”

As lágrimas saíram dos meus olhos como um rio. Nikolai era um bom amigo por ficar ali comigo, sem dizer nada. Eu não queria voltar para casa. Eu queria ficar ali, para sempre. Mas nada dura para sempre.

Os dias que se seguiram foram tensos. Na escola não podíamos falar nada sobre judeus. Alguns de meus colegas pararam de frequentar as aulas. Eles ainda tinham que usar faixas em seus braços direitos com o símbolo da Estrela de Davi. Agora havia mais policiais nas ruas. O exército também estava lá, armado. Havia toque de recolher. Não podíamos mais brincar depois da aula. A ordem era ir direto para casa. Meu pai não estava mais indo trabalhar na fábrica. Quando perguntávamos por que, ele dizia que a fábrica estava em reforma, mas todos sabíamos que era mentira. Minha irmã começou a ajudar em casa, costurando para os vizinhos, mas ninguém tinha dinheiro para pagar por qualquer que fosse o serviço. Stefan estava cada vez mais agitado. Não conseguia fazer uma refeição sem discutir com meu pai. Todas as noites eram iguais. Depois do jantar, fazíamos nosso devocional e íamos direto para nossas camas. Por algumas vezes, eu vi quando Stefan pulava a janela do quarto e saia na noite escura e só voltava quando o sol estava quase nascendo. Às vezes eu também podia ouvir minha irmã chorando ou meu pai perguntando a razão por aquilo estar acontecendo. Eu não conseguia dormir mais sozinha, então eu dormia com Edyta ou com meus pais. As sirenes das ambulâncias e viaturas que passavam a noite não me deixavam ter um sono sossegado.

Depois de duas semanas, as aulas foram canceladas. As professoras nos mandaram para casa depois que um professor foi preso dentro da sala de aula. Não podíamos falar sobre isso também. Na rádio ouvimos que os judeus só poderiam comprar alimentos e roupas em lojas que pertencessem a judeus e não judeus de não judeus. Acontece que no nosso bairro todas as lojas e vendas eram de judeus, então tínhamos que andar muito mais para poder comprar comida. As ruas estavam frias e úmidas. Não se ouviam mais risadas. Eu estava com medo.

No dia vinte e nove de agosto de 1939 minha irmã completou dezesseis anos e ganhou de presente um lindo vestido. Ela o colocou para irmos até a Igreja, mas quando chegamos lá, a Igreja estava fechada. O Reverendo Kowalak nunca tinha deixado as portas da Igreja fechada.

“Não poderemos nos reunir essa noite, meus irmãos. O exército alemão fechou nossa querida Igreja e se hospedou lá com seus soldados.”

Aquilo foi o fim. Ao voltarmos para casa, nos sentamos à mesa da cozinha e ficamos lá quietos, olhando para a vela que estava acesa. Quanto tempo mais duraria essa situação?

“Eu cansei. Amanhã vou me alistar. Não consigo ser um prisioneiro em meu próprio país.”

“Stefan! Eu o proíbo. Proíbo você de fazer isso. Proíbo você de querer se suicidar.”

“Papa, você não pode me proibir. Eu já tenho dezoito anos.”

“Se você fizer isso, Stefan, não será mais meu filho.”

Eu gelei. Nunca imaginaria que meu pai seria capaz de expulsar um filho seu de casa.

“Józef, você não pode fazer isso.”

“Deixa, mama, deixa ele. Se é o que ele quer… Eu não sou um covarde. Não posso ver pessoas sendo presas e executadas e ficar parado aqui como o senhor!”

Nesse momento meu pai esbofeteou meu irmão. Nós nunca apanhamos. Nunca foi preciso meus pais falarem algo para nós mais de uma vez. O silêncio mortal dentro de nossa cozinha foi quebrado com o barulho de uma sirene passando na rua. Ficamos ali, parados, chocados. O rosto do meu irmão estava vermelho, de dor e de raiva. As lágrimas brotavam nos olhos da minha mãe e meu pai, meu querido pai, desmoronou. Ele chorou, como um bebê. Todos choramos. Ele então abraçou meu irmão que também chorava. Foi a última vez que toda minha família ficou reunida.

No dia seguinte eu fui até a casa de Nikolai. Eu queria saber como ele e seus pais estavam. Afinal de contas, a Igreja era o trabalho do Reverendo. Bati na porta várias vezes. Toquei a campainha, gritei pelo nome dele, mas nada. Será que eles tinham saído? Será que estavam na Igreja?

Uma senhora que morava em uma das casas vizinhas acenou para mim.

“Bom dia, Dona Podleski. Como tem passado?”

“Como Deus quer, minha querida. O que está fazendo na casa do Reverendo?”

“Procurando pelo Nikolai. A senhora o viu hoje?”

“Então não sabe, menina? Ontem o Reverendo, a esposa e o menino foram embora.”

“O quê? Como assim? Nikolai teria falado comigo.”

“Sim, menina. Depois que o Reverendo viu que sua Igreja tinha sido tomada por aqueles porcos, pegou sua família e foi embora. Fez muito bem. Se eu pudesse, faria o mesmo.”

“E disseram para onde iam? Se voltarão?”

“Não, menina. Não sei te responder. Provavelmente foram para a América. Dizem que lá não existe essa Guerra.”

Eu não podia acreditar. Nikolai havia partido. Meu melhor amigo tinha indo embora sem se despedir de mim. Eu que sempre contei com ele para tudo, agora não tinha mais ninguém.

“Quer saber de um segredo, menina? Esse tal de Hitler… esse homem é um egoísta que quer o Mundo só para ele. Mas ele vai se dar mal. Escute o que estou falando. Quem planta o mal só pode colher frutos estragados.”

“A senhora acha que vai acontecer essa Guerra mesmo, Dona Podleski? Meu pai acredita que o Governo vai conseguir conter as tropas na fronteira.”

“Ah, conter? Seu pai é um tolo, meu bem. Há alemães em todos os lugares. Não se engane. Essa Guerra já está acontecendo.”

Eu fiquei sem chão. Será que ela tinha razão? Voltei para casa correndo, queria contar para meus pais sobre Nikolai. Quando entrei na cozinha vi que minha mãe chorava sem parar, meu pai estava sentado e meu irmão estava na porta, com uma mala na mão. No começo eu não entendi. Mas então eu soube. Meu irmão estava indo embora. Ele iria se alistar. Iria participar da Guerra.

“Então é isso? O senhor vai ficar aí parado sem me dizer nada?”

“Você não quer que eu diga nada. Vá, Stefan. Vá fazer o que você acha que deve fazer.”

Meu irmão saiu pela porta e nunca mais voltou. Minha irmã estava no nosso quarto, chorando. Eu queria falar com ela, conversar sobre o que estava acontecendo. Queria dizer que estava com raiva por Nikolai ter ido embora sem se despedir e que agora o Stefan tinha feito a mesma coisa. Será que ninguém se importava com o que sentia?

“Edyta, você acha que vamos entrar em Guerra? Você acha que a Alemanha vai nos atacar, nos prender e nos matar?”

“Nyna, não somos judeus. Nenhum mal vai nos acontecer.”

Eu queria acreditar no que minha irmã estava dizendo.

As horas passaram devagar naquele dia. Antes do jantar minha mãe pediu que eu fosse colher algumas ervas no jardim. Enquanto eu colhia, vi que a maioria das casas da nossa vila já estavam totalmente vazias. Minha família e a Dona Podleski eram as únicas na vila. Eu estava com medo, mas não queria demonstrar.

Tudo aconteceu no dia 1° de setembro de 1939. Eu lembro que o dia amanheceu cinza como fumaça e que podíamos ouvir gritos de homens, mulheres e crianças. Durante os dias que se seguiram, podíamos ouvir o barulho de balas e bombas explodindo. No início tentamos agir normalmente, não tínhamos nada o que temer. Mas depois de quase quatro semanas, a situação era caótica. O único lugar que nos sentíamos seguros era o nosso porão. Ficávamos ali, abraçados, pedindo que tudo aquilo acabasse. Meus pais estavam tão aterrorizados quanto Edyta e eu, e o que quer que estivesse acontecendo lá fora não era bom.

Durante uma noite, enquanto arrumávamos as coisas, ouvimos um barulho de vidros sendo estilhaçados, eram as nossas janelas sendo quebradas. Pegamos nossas coisas e descemos até o porão. Ficamos ali, quietos, esperando pelo pior. Ouvimos passos na nossa sala, cozinha… eles estavam lá. Eu não queria, mas comecei a chorar como um bebê.

“Nyna, não fique assim. Vai passar.”

Minha mãe tentava me consolar, mas nada era possível. Eu os ouvi falando em outro idioma e não entendi nada do que disseram. Foi quando eles arrancaram a porta do porão e começaram a descer os degraus. Não sei dizer quantos soldados entraram em nossa casa, mas me lembro que suas lanternas nos deixaram cegos por alguns segundos. Um dos soldados veio em nossa direção com uma arma apontada para nós. Com um sotaque forte ele perguntou:

“Escondendo judeus?”

Meu pai respondeu que não. Não estávamos escondendo ninguém. O soldado pediu para que mostrássemos nossas identidades provando que não éramos judeus. Assim o fizemos. Por alguma razão ele não acreditava em nós. Eles revistaram toda nossa casa. Quebraram portas, armários, fizeram buracos em nosso porão. Começaram a comer nossa comida, a brincar com nossas coisas e roupas. Minha irmã Edyta estava muito calada. Meu pai sabia que não podia fazer nada.

“Tem certeza que não estão escondendo judeus?”

“Não, senhor. Não estamos escondendo ninguém.”

Depois de momentos de terror, eles finalmente foram embora. Quando saíram meu pai desabou, minha mãe, que tinha ficado calada todo o tempo, começou a falar:

“Józef, quero ir embora. Quero sair da Polônia. Meu filho, Stefan; Stefan, meu filho, onde você está?”

“Irena, você precisa se acalmar.”

“Não! Eu não quero me acalmar. Quero meu filho. Eles vão matá-lo. Você sabe, Józef. Vão matar meu filho.”

Meu pai abraçou minha mãe, que não parecia melhorar nunca. Minha irmã também chorava.

“O que vai ser de nós, Edyta? Será que vão nos prender?”

“Eu não sei, Nyna. Não sei…”

Já estava escuro lá fora, meu pai então pegou toras de madeira que estavam no nosso quintal e começou a arrumar algumas portas. Mamãe pediu que eu varresse o chão da cozinha, que limpasse a bagunça que tinham feito. Ela e Edyta subiram para arrumar as camas para que pudéssemos dormir. Enquanto eu varria, podia ver pela janela que todas as casas da nossa vila tinham sido invadidas. Então eu vi que a casa da Dona Podleski ainda tinha uma luz. Mesmo com medo, decidi ir até lá para ver se ela estava bem.

Saí com muito cuidado; não queria que papai me pegasse de surpresa e me colocasse de castigo. Eu fui até sua varanda e encontrei a casa toda aberta. Nunca tinha entrado em uma casa sem a permissão do morador, mas algo me dizia que eu precisava fazer isso.

“Dona Podleski! Dona Podleski! A senhora está por aqui?”

Nada. Silêncio. Chamei mais algumas vezes e nada. Meu coração pulava dentro do meu peito. Eu precisava me acalmar. Quando entrei na cozinha via que a Dona Podleski estava caída no chão, com algumas feridas na cabeça e no rosto.

“Dona Podleski, o que aconteceu aqui? O que fizeram com a senhora?

Eu coloquei sua cabeça em meu colo e tentei conversar com ela.

“Fale comigo. O que eles fizeram com a senhora?”

“Ah, menina. Me desculpe. Em mim apenas deram algum socos e pontapés. Preciso que veja como estão os outros.”

Outros? Eu não sabia que a Dona Podleski morava com mais alguém.

“Outros? De quem a senhora está falando?”

“Das crianças. Veja se pelo menos as crianças ficaram. Ali. Atrás do armário.”

Ela apontou para um armário grande perto da lareira. Eu corri até lá e para minha surpresa não era apenas um armário, mas uma porta para um quartinho pequeno entre a parede. Eu olhei para ela, espantada. Será que ela tinha escondido judeus?

“Dona Podleski?! Não tem ninguém aqui.”

Ela então começou a chorar. Eu a ajudei a se levantar e a se sentar no seu sofá. Peguei um pouco de gelo, limpei seu rosto. Dei água para ela beber.

“O que aconteceu aqui?”

“Menina, você se lembra da família que morava perto da Igreja, naquela casa bonita com flores na varanda?!

“Sim. Eles iam em nossas reuniões. O que tem eles?”

“Você sabia que eles eram judeus?”

“Não. Quer dizer, depois de toda essa confusão eu nem os via mais andar nas ruas.”

“É porque eles estavam aqui, escondidos.”

Eu não podia acreditar. Uma senhora como a Dona Podleski escondendo judeus em sua própria casa.

“E onde eles estão agora?”

“Eles os levaram. Levaram todos. Eu tentei impedir, mas acabei caindo no chão e depois eles começaram a me espancar.”

Eu tentei me lembrar daquela família. Na verdade eu nem conseguia me lembrar de seus rostos ou dos seus nomes. Tinha o pai, a mãe, dois filhos, e duas filhas. Era uma família bonita, que costumava frequentar nossa Igreja aos domingos de manhã. Mas eram muito calados.

“E o que vai acontecer com eles? Para onde os estão levando?”

“Não sei, minha querida. Mas quero que você saiba de uma coisa. Essa Guerra não é nossa. Não farão mal algum a nós.”

Eu voltei para casa depois de ajudar Dona Podleski a arrumar sua casa. Ela estava bem, me garantiu que não ajudaria mais ninguém. Eu nunca mais a vi. Não sei se morreu, se foi embora ou se ajudou outros e foi presa por traição.

Dormi pouco naquela noite. Fiquei pensando naquela família. Será que eles eram maus? Afinal, qual era o problema em ser um judeu? Não conseguia entender o ódio que todos sentiam e mandavam a gente sentir também.

Durante duas semanas ficamos em casa. Papai tinha consertado as portas e substituído algumas janelas. Nossas cortinas ficavam fechadas o tempo todo. Edyta e eu tínhamos ido até as outras casas da vila para ver se conseguíamos comida e água. Voltamos com algumas frutas, verduras, um pouco de carne e leite, mas sem água. O rádio não funcionava mais. Em dois dias eu completaria quinze anos, era dezembro de 1939. Meu pai perguntou o que eu queria de aniversário.

“Que essa guerra acabasse.”

Eu sabia que ele não podia me dar o fim da guerra, então, na véspera do meu aniversário, ele me deu seu relógio de corda.

“Tome, Nyna. É seu!”

Eu sempre tinha me encantado com aquele relógio. E agora ele era meu. Minha mãe preparou um bolo de chocolate, igual ao que ela mandava para a família do Reverendo, e naquela noite comemos todo o bolo com leite. Ninguém falou nada. Apenas ficamos ali, sentados sob a luz de uma vela comendo.

“Eu estou muito feliz por todas vocês estarem aqui.” As lágrimas começaram a brotar nos olhos de meu pai.

“Estamos sem comida, água, o exército está cada vez mais tomando conta das coisas. Eu ouvi dizer que estão ajudando as pessoas a embarcarem em um navio que vai para a América.”

Todos ouviam atentamente.

“Nós não temos dinheiro, mas conversei com um dos rapazes que me disse que não precisamos pagar na hora.”

“Papa. E se Stefan voltar?”

“Edyta, não podemos ficar aqui esperando que seu irmão volte. Morreremos de fome e sede. Aqui moravam muitos judeus. Nosso bairro está destruído.”

“Mas se Stefan voltar e não nos encontrar? Como ele vai saber onde estamos?”

“Nyna, você já está grandinha. Já pode saber que seu irmão tomou a decisão dele e não pensou em nós. Temos que tomar nossas decisões e orar para que ele apenas fique bem.”

Não havia mais nada a ser dito. As casas de nossa vila já estavam vazias. Todos os nossos vizinhos já haviam partido. Até a Dona Podleski tinha ido embora, com medo dos alemães voltarem para terminar com o que tinham começado. No dia seguinte, fizemos nossas malas e caminhamos até o local de encontro para que um carro nos pegasse. O porto era longe de Varsóvia. A viagem seria longa.

Entramos em um carro estranho, não podíamos falar ou perguntar nada. Um homem alto de barba preta dirigia pelas ruas de nosso bairro. Era a primeira vez que eu revia tudo depois do início da Guerra. Tudo parecia tão triste. Tão feio. Alguns cachorros fuçavam o lixo perto da minha escola. Soldados alemães ocupavam cada lugar importante. Escolas, igrejas, hospitais…

“Vão tentar embarcar para a América?” perguntou o motorista.

“Sim. Tentaremos embarcar em um dos navios.”

“Não existem dois, meu senhor. É apenas um. E se o senhor não embarcar nesse, não embarcará em outro.”

Meu pai olhava para nós, preocupado, sem esperanças. Eu dormi durante grande parte da viagem. Minha mãe me acordou quando chegamos perto de um dos locais onde soldados alemães montavam guarda.

“Fiquem tranquilos. Isso aqui é normal.”

“Boa tarde, senhores. Onde pensam que vão?” Eu comecei a odiar o sotaque dos alemães.

“Estamos indo para o porto, meu senhor. Essa família entrará em um dos navios para a América.”

“São judeus?”

“Oh não, meu senhor. São cidadãos comuns.”

“Documentos.”

Eu já estava acostumada a sentir medo, mas sempre que eles se aproximavam de mim, era terrível.

“Algum problema, senhor?” perguntou o homem de barba preta. “Vamos acabar perdendo o embarque.”

O soldado olhou para ele e começou a rir.

“Por favor, desçam.”

Obedecemos ao soldado. Edyta e eu ficamos de mãos dadas durante todo o tempo. Estávamos tensos, alguma coisa estava errada.

“O que o senhor vai fazer na América, Sr. Janowicz? Já tem emprego lá?”

“Ainda não. Estamos indo exatamente para conseguir uma vida melhor.”

“E o senhor acha que a vida lá é melhor do que essa aqui?”

“Apenas quero que minhas filhas tenham um futuro melhor, senhor!”

Ele abriu nossas malas, olhou em todos os cantos no carro e finalmente nos deixou ir. Entramos no carro e relaxamos, agora só tínhamos que embarcar e todos os nossos problemas acabariam. Quando ligamos o carro e demos partida, o mesmo soldado mandou que parássemos.

“Algum problema, senhor?”

“Não. Só queria ter certeza que os senhores sabem o que estão fazendo.”

“Sim, nós sabemos.”

“É mesmo? E o senhor?” perguntou ao motorista. “Sabe mesmo o que está fazendo?”

“O que o senhor quer dizer?”

“Vou perguntar mais uma vez, vocês são judeus?”

“Não, senhor, somos poloneses,” respondeu meu pai.

“E o senhor? O senhor é polonês também?” Dessa vez a pergunta era para o motorista.

“Sim, senhor. Nascido na Varsóvia, como dizem meus documentos.”

“Então não terá problema algum em me provar isso, não é?”

O motorista encarou o soldado.

“O senhor terá problema em provar para nós?”

“Como o senhor quer que eu prove?”

“Ora… só existe uma forma para isso.”

Eu havia aprendido na Escola Dominical que todo menino judeu era circuncidado ao oitavo dia de vida. Todo judeu era. Jesus Cristo havia sido. Era uma tradição. E era a única coisa que eles não podiam esconder.

“Desça!” ordenou o soldado.

O motorista obedeceu. Começou a abrir seu cinto.

“Aqui não! Temos damas presentes.”

Então levaram o homem até a floresta. Ficamos observando enquanto ele entrava na mata. Os segundos não passavam. Ficamos ali, aguardando. E então ouvimos um barulho. Tinha sido um tiro.

Os soldados voltaram, mas o homem de barba preta não. O soldado então veio até meu pai:

“O senhor sabia que ele era um judeu?”

“Não, senhor, eu nem imaginava.”

“Onde o conheceu?”

“Hoje mesmo. O conhecemos quando ele nos pegou para nos levar até o porto.”

“Eu acredito no senhor. Eles podem ser muito astutos.”

“Obrigado. Podemos ir então? Não queremos perder o embarque.”

“Claro. Mas antes vocês vão ter que pagar uma pequena quantia para liberarmos o carro. Afinal de contas, pertencia a um judeu.

“Não temos dinheiro.”

“Nada? Nenhum anel de ouro, brinco, relógio? Se vocês não pagarem, terão que ser presos por traição.”

Meu pai olhou para nós. Minha mãe entregou sua aliança, Edyta um colar com um pingente de ouro e eu, o relógio que tinha ganhado de aniversário. Ele colocou tudo em um lenço e entregou ao soldado.

“É tudo o que temos.”

O soldado pegou tudo, analisou e guardou no bolso.

“Desçam. Desçam já do veículo.”

Mais uma vez obedecemos.

“Eu já estou cansado de pessoas como vocês, que ajudam judeus e ainda querem fugir do seu país. Vamos, estão presos, por traição à Polônia e a Hitler.”

“O quê? Senhor, não… por favor.”

O que aconteceu a seguir foi completamente uma bagunça. Bateram em meu pai, que caiu desmaiado, jogaram nossas malas no chão e nos separaram. A última coisa que vi foi meu pai estirado no chão, sangrando, apanhando. Minha mãe tentou lutar até o último segundo e acabou levando um tiro. Edyta e eu fomos empurradas para dentro de um furgão. Chorávamos muito. Não sabíamos o que estava acontecendo, não entendíamos nada. Ouvimos o motor roncar. O furgão começar a se mover. Imploramos que fôssemos libertas, precisávamos sair daquele lugar. Mas nada aconteceu. Depois de horas gritando e lutando, desistimos. Estávamos cansadas, com frio e fome. De repente o furgão parou e a porta foi aberta. Ao invés de um soldado, vimos uma mulher. Mas não era uma mulher comum. Essa era mais alta, gorda e com um coque bem no alto de sua cabeça.

“Desçam já!”

Edyta e eu descemos e demos as mãos. Ficamos ali, paradas, esperando pelo que aconteceria.

“Mexam-se. Andem.”

Andamos até uma casa muito bonita. Era imensa. Nunca tinha visto uma casa como aquela. Com três andares, era maior do que nossa Igreja. Entramos pela porta dos fundos que dava para uma cozinha muito grande e branca. Lá dentro haviam outras pessoas, homens e mulheres. Todos usavam uniforme e pareciam muito tristes em nos ver.

“Falam alemão?”

“Não,” respondeu Edyta.

“Pior para vocês,” respondeu a mulher de coque.

“Onde estamos? Onde estão nossos pais?” Edyta queria respostas, eu queria respostas.

“Nesse momento ou estão mortos ou vão morrer.”

Aquela mulher claramente estava zombando de nós. Eu fiquei com tanta raiva que explodi.

“Como vocês ousam nos prender? Não somos judeus. Não fizemos nada de errado. Estão cometendo um grande erro. Não podem nos prender. Não traímos nosso país. Eu quero meus pais…”

E então eu senti a mão daquela mulher em meu rosto. Doeu muito. Minha pele ficou vermelha e meus olhos lacrimejaram. Edyta me abraçou, mas minha raiva e dor eram tão grandes que a empurrei para longe de mim. Eu queria agarrar aquela mulher, mas Edyta me abraçou novamente e sussurrou em meu ouvido.

“Nyna, não faça isso. Agora somos apenas nós duas. E se você continuar a provocar essa mulher, serei apenas eu.”

“Escute sua irmã, moleca. Você, como se chama?”

“Edyta Janowicz.”

“Quantos anos tem?”

“Dezesseis.”

“E você, pirralha atrevida? Como se chama?”

“Katanyna Janowicz. Tenho quinze anos.”

“Muito bem. Se vocês duas não fossem tão bonitas, não estariam aqui nesse momento. O General precisa de empregadas bonitas e novas.”

“O quê? Empregadas?” perguntou Edyta. “Não entendemos senhora. Onde estamos?”

Eu não entendia nada. Primeiro porque meu rosto ainda ardia e a raiva me consumia e também porque o sotaque daquela mulher era terrível.

“Vocês duas agora trabalham para o General Dirk Franz. Ele é um oficial alemão e está precisando de novas serviçais. As últimas esconderam que eram judias e foram mortas quando descobertas.”

“Deve haver algum engano. Nós estávamos indo com nossos pais para a América.”

“Sinto muito, menina. Os planos mudaram, agora vocês irão conosco. Nos mudaremos em breve, portanto, espero que as duas se comportem bem e não me deem trabalho.”

“Mudar? Nos mudaremos? Para onde?”

“Com licença.” Era óbvio que Edyta sabia se portar muito melhor que eu. “A senhora disse que nos mudaremos. Para onde?”

“Ora, meu bem, nos mudaremos para a Alemanha. Em breve deixaremos esse país fedorento e beijaremos a terra do nosso amado Führer.”

Meu coração disparou. Eu olhei para Edyta. Nós iríamos morrer. A mulher de coque nos levou até um quarto pequeno, nos deu novos vestidos, toalhas e sabonetes. Mandou que tomássemos um banho rápido, pois iríamos conhecer o General Franz. Eu queria lutar, enfrentar, mas sabia que não devia. Eu me olhei no espelho do banheiro e vi as marcas da mão daquela mulher em minha bochecha. Tomei um banho rápido e fui direto para a cama. Tudo tinha acontecido tão rápido. Eu ainda não tinha digerido tudo.

“Edyta. Você já está dormindo?”

“Claro que não, Nyna. Como você pode achar que estou dormindo depois de tudo o que aconteceu? O que foi?”

“Você acha que nossos pais morreram?”

“Acho que sim. Infelizmente acho que sim.”

“E o Stefan? O que você acha que aconteceu com ele?”

“Não tenho ideia. Talvez ele esteja por aí. Quem sabe?”

“E nós, Edyta? O que vai acontecer com a gente?”

“O que eu sei é que vamos para a Alemanha. Você precisa obedecer a tudo o que essa gente mandar. Ouviu, Nyna? Eles são perigosos e não vão pensar duas vezes se quiserem nos matar.”

Eu ouvi em silêncio. Estava sem forças. Exausta.

“Nyna?”

“Sim, Edyta.”

“Nós vamos ficar juntas, me ouviu? Juntas.”

“Sim, para sempre.”

Cochilei por algum tempo, não sei se foram minutos ou horas, só sei que a mulher de coque apareceu em nosso quarto antes mesmo do sol nascer.

“Acordem. O General Franz já está de pé. Precisamos fazer seu café.”

Assim que levantamos, nos arrumamos, prendemos nossos cabelos e fomos até a cozinha. Lá aprendemos que nunca deveríamos falar com o General, esposa ou filhos se eles não falassem conosco antes. Aprendemos também a colocar a mesa, servir café, pão e manteiga, que o General era alérgico a frutos do mar e sua esposa odiava ser contrariada. Eles tinham dois filhos, dois pequenos nazistas que já odiavam os judeus apenas por terem aprendido a odiar. Devíamos colocar a mesa e sair sem fazer barulho. Se o sino fosse tocado, deveríamos retornar, ouvir as instruções e obedecer. Não éramos mais livres, agora pertencíamos àquela família e deveríamos obedecê-los.

Trabalhávamos o dia todo e quando não obedecíamos a Madame Becker (esse era o nome dela) voltava a nos bater. Apanhei muito até descobrir como a família do General Franz gostava do seu chá.

A viagem até a Alemanha aconteceu alguns dias depois e eu não conseguia pensar em mais nada durante ela. Só pensava que eu tinha tudo: casa, amigos, família. E agora eu estava indo morar em outro país, sem meus pais, sem o Stefan, sem o Nikolai. O que aconteceria a seguir?

Nos mudamos para Berlim, Alemanha, para uma casa imensa, cheia de quartos. Edyta e eu éramos as responsáveis por cuidar das refeições da família, mas sempre que possível escapávamos para algum lugar secreto, onde podíamos conversar sobre nossa antiga vida. Gostávamos de olhar para o céu, observar as nuvens.

“Tudo lá em cima parece tranquilo.”

“É verdade.”

“Eu queria ir morar no céu.”

“Eu também, Nyna.”

E assim foram se passando os dias, semanas, meses e anos. Depois de um tempo eu parei de contar. Parecia que eu morreria ali. Nós aprendemos alemão para facilitar nossas idas até o mercado, vila ou apenas para ouvir melhor as ordens do General e sua família. Dessa forma também podíamos saber quando alguma coisa acontecia em outros países. Quando o exército alemão avançava. Por um tempo, as coisas ficaram muito feias e, infelizmente, era um alívio estar na casa de um alemão, pois ninguém poderia mais nos fazer mal. Exceto quando algo dava errado na cozinha e tomávamos uma bofetada no rosto. Com o tempo, começamos a apanhar com qualquer coisa, em qualquer lugar e por qualquer razão. A verdade é que aquela mulher bruta, madame Becker (eu a odiava), não tinha nenhuma alegria na vida, a não ser bater em nós. Edyta era quem mais sofria. Ela tentava me proteger e acabava apanhando mais.

“Se continuar a proteger sua irmã, Edyta, não te dou comida.”

Eu queria assumir quando quebrava um copo ou deixava o peixe queimar, mas Edyta dizia que não, que ela era a responsável e que deveria ser ela a culpada. Eu não reconhecia mais a minha irmã. Ela estava magra demais, com o rosto triste. Seu olhar não era o mesmo.

“Edyta, você não pode deixar de comer. Eu não posso permitir que você sofra por minha causa.”

“Você tem que ficar quieta, Nyna. Eu sou a irmã mais velha. Eu sei o que estou fazendo.”

“Mas você prometeu que ficaríamos juntas, para sempre.”

Mas era tarde demais. Edyta ficou desnutrida e começou a perder peso rapidamente. Depois de apenas alguns dias ela estava fraca. Com febre e manchas roxas em seu corpo, Edyta parecia ter desistido de viver. Não queria nem levantar da cama.

“Vamos lá, Edyta. Nós prometemos que ficaríamos juntas. Você não pode me abandonar.”

“Nyna, eu não aguento mais.”

“Edyta, eu preciso de você aqui comigo. Já perdi coisa demais.”

“Lembra uma vez que você me disse que gostaria de morar no céu?!”

“Sim, lembro. Mas agora eu não sei se o céu ainda existe.”

“Não diga isso. Você sabe que sim. Eu vou pra lá. Vou encontrar nossos pais. Talvez até Stefan.”

“Edyta, não morra, por favor, não morra.” Eu nunca mais tinha chorado, mas ver minha irmã naquele estado era demais para mim.

“Lembra da música que a mamãe cantava para nós quando estávamos com medo?”

“Sim. Quando o medo vier e você quiser, vem até mim. Eu vou te esperar, vou te abraçar, todos os dias, eu vou te amar.

“Essa mesma. Eu estou ouvindo a mamãe cantando aqui agora para mim.”

Eu só chorava.

E se mesmo assim, você não conseguir, não se esqueça, amor, eu estarei aqui. Até quando você precisar, eu vou te esperar, vou te abraçar, todos os dias, eu vou te amar.

Perder a minha irmã foi tão terrível como perder meus pais. Ela era a última coisa que eu tinha na minha vida. O General Franz permitiu que a enterrássemos no quintal perto das rosas, pois era o lugar favorito dela aqui e foi o que fizemos. Alguns empregados, a maioria poloneses, me ajudaram a enterrá-la. Edyta estava usando um vestido e seus cabelos estavam soltos. Ela quase parecia aquela menina de tantos anos atrás. Agora era apenas eu.

Em dezembro de 1944 eu completaria vinte anos. No dia no meu aniversário, eu não falei nada para ninguém. Pedi permissão para ir até um mercado, pois queria comprar algumas frutas frescas. Sempre que eu podia caminhar pelas ruas de Berlim, eu ia até uma lojinha antiga perto do centro. O dono dela, um velhinho alemão chamado Hans, sempre era muito simpático comigo e com Edyta. Depois que ela morreu, eu só aparecia de vez em quando, mas sempre deixava com ele uma maçã que trazia do mercado. Eu gostava de olhar para a vitrine da loja dele. Tinha um relógio de corda que era muito parecido com o que o meu pai tinha me dado quando eu era mais nova. Eu simplesmente me encantava sempre que o via.

“Esse relógio te faz lembrar de algo, menina Nyna?”

“Sim, senhor Hans. Quando eu tinha quinze anos, meu pai me deu um muito parecido.”

“E quantos anos você tem agora?”

“Vou completar vinte em poucos dias.”

“Então ele é seu.”

“Ah, não. Não posso pagar por ele. Não ganho salário.”

“Não quero que pague por ele. Estou te dando de presente.”

Eu gostava do Sr. Hans. Ele era muito simpático.

“Sabe, menina, esse país está quebrado, não serve para mais nada. Quando essa guerra acabar ninguém vai querer voltar a fazer negócios conosco.”

“Quando essa Guerra acabar. Será que algum dia ela vai acabar?”

“Não conte a ninguém, mas ouvi dizer que ela está no fim.”

“O senhor tem certeza? A Guerra está acabando?”

“É o que eu ouvi. Depois do que aconteceu em junho, no dia D, dizem que os japoneses atacaram uma base americana no Havaí e que agora os americanos vão entrar com tudo nessa Guerra. Já libertaram a França, minha filha. Os poloneses já tentaram se rebelar. As coisas estão mudando e, se tudo isso realmente for verdade, eu tenho pena de Adolf Hitler.”

“O que o senhor está dizendo é verdade? A Guerra vai mesmo acabar? E o que vai acontecer conosco?”

“Vamos, finalmente, morrer em paz.”

Eu não podia acreditar no que ouvia. O fim da Guerra. O fim de Adolf Hitler. Eu poderia voltar para a Polônia. Para minha terra. Poderia, enfim, descobrir se ainda havia alguém vivo. Corri para casa para contar aos empregados, mas quando cheguei lá, algo estava diferente. Ainda de longe, eu podia ver fumaça saindo por uma das janelas. O portão estava aberto. Eu não tinha deixado ele aberto quando sai. Por quanto tempo fiquei fora, duas, talvez três horas? Tinha um carro estacionado nos fundos da casa. Eu me aproximei lentamente da porta da cozinha e vi Madame Becker caída no chão. Eu entrei correndo, me agachei até ela:

“Madame? Madame? Fale comigo.”

Ela estava morta. Tinha levado um tiro bem no coração. Eu não queria, mas estava aliviada com isso. Mas se ela estava morta, quem a teria matado? Comecei a andar pela casa, mas ela estava vazia. Subi as escadas que davam para os quartos principais, abri porta por porta e o que vi foi algo terrível.

O General Franz estava deitado em sua cama, vestido com seu uniforme e com um tiro em sua cabeça. Sua insuportável esposa estava ao seu lado, ainda de robe branco, maquiada e com um tiro no peito. Abafei um grito; aquilo era assustador. Fui até o quarto das crianças e os dois filhos, aqueles moleques sem educação, também estavam deitados em suas camas, com seus pijamas e com um tiro na cabeça cada um. Ouvi um barulho vindo da biblioteca no andar debaixo. Tinha gente na casa.

O que teria acontecido? Eu desci correndo as escadas com medo de que, seja lá quem tivesse feito isso, ainda estivesse por ali. Então, ouvi novamente vozes vindas da Biblioteca. Me aproximei… — sabia que deveria sair dali, mas algo me dizia que eu deveria ficar e ouvir.

“Sim, sim… o General Franz está morto. Assim como toda sua família.” Era uma voz de um homem que falava ao telefone. Seja quem fosse, ele estava avisando sobre a morte do General Dirk Franz.

“Não, todos os empregados também estão mortos.” Eu tomei um susto nessa hora, todos estavam mortos.

“Sim, senhor. Farei isso imediatamente.” E desligou o telefone.

“Albert! Albert!”

“Sim, General Dieter. O que deseja?”

“Capitão, quero que tire tudo o que for de valor e importante dessa casa e a queime.”

“Como quiser, General.”

“E vamos logo embora, antes que tudo comece a feder.”

Como eu iria sair daqui? Na casa de um nazista, me escondendo de outro. O tal do Capitão Albert começou a revirar todas as gavetas e armários, pegando papéis, joias e dinheiro. Depois disso colocou tudo em uma grande caixa e a jogou dentro de um carro. Eu não tinha muito tempo, precisava agir rápido. Corri até meu quarto, peguei algumas roupas e uma fotografia de Edyta e atravessei correndo a cozinha. Foi nesse momento que o General Dieter me viu.

“Ali. Olhem. Há uma garota. Atrás dela!”

Eu tinha que ser mais esperta do que eles. Comecei a correr pela plantação de milho do General Franz. Caí algumas vezes. Me machuquei. Mas não podia deixar que me pegassem. Não agora. Não sabia a razão pela qual o General Franz e toda sua família havia sido morta, mas eu não seria mais uma. Eu me escondi atrás de uma árvore e fiquei lá durante toda a noite. Com um corte no braço, a única coisa que eu podia fazer era esperar.

No dia seguinte, depois que tudo estava mais calmo, voltei até a casa onde por anos havia morado. Ali nunca tinha sido meu lar. Tudo estava queimado e, por alguma razão, tudo parecia mais tranquilo. Eu senti alívio. Se a Guerra estivesse mesmo no fim, eu teria que sobreviver a ela por mais alguns dias. Eu não orei por aquelas pessoas, mesmo as inocentes que haviam morrido. Eu havia me tornado uma pessoa amarga e triste. E agora estava livre para voltar para casa.

Fui até a loja do Sr. Hans. Contei para ele tudo o que havia acontecido e para minha surpresa, ele me ofereceu abrigo.

“Somos apenas eu e minha esposa.”

“Parece ótimo.”

“Então, venha. Vamos entrar.”

Naquela noite eu comi a mais gostosa e saborosa refeição de toda a minha vida. Acho que me esqueci totalmente dos meus modos à mesa.

“Você está machucada. Precisa cuidar desse ferimento,” disse a senhora.

“Não. Eu estou bem. O pior já passou. Muito obrigada.”

“Então, me diga, de onde você é?” perguntou o senhor.

“Varsóvia, Polônia.”

“E o que está fazendo aqui, tão longe de casa?”

“Quando eu tinha quinze anos, minha família e eu tentamos embarcar em um navio para a América. Infelizmente, fomos interceptados e minha irmã e eu acabamos sendo trazidas para Berlim.”

“E seus pais? Tem alguma notícia deles?”

“Não, senhor. Acredito que, se não foram mortos naquele mesmo dia, foram enviados para campos de concentração.”

“Você tem mais alguém?”

“Um irmão. Seu nome é Stefan. Ele se alistou no exercito polonês há quase seis anos.”

“E você acha que ele ainda está vivo?” perguntou a senhora.

“Não, senhora. Mas se estiver morto, quero saber onde está.”

“Muito bem. Você sabe que não existem trens para Varsóvia, Polônia, não sabe? Como você vai fazer para ir para lá?”

“Se eu tiver que ir andando, assim o farei. Mas não quero mais ficar aqui. Eu não aguento mais esse lugar.”

Os dois olharam para mim como se eu fosse uma criança perdida. E talvez eu realmente fosse. Eu não queria encontrar mais obstáculos em minha vida, só queria voltar para minha casa.

“Acho que podemos te ajudar.”

“Como? Como podem me ajudar?”

O senhor me explicou que uma vez por semana um caminhão carregado de legumes ia até a fronteira da Polônia. Se eu quisesse, ele me colocaria dentro do caminhão. Era arriscado. Eu deveria ter certeza se queria mesmo fazer isso.

“O resto é com você, menina.”

“Eu agradeço muito.”

Durante alguns dias eu me preparei e no dia marcado, fomos até a garagem onde ficava estacionado o caminhão. O senhor, dono da loja, conversou com o motorista e explicou minha situação. Eu vi quando o motorista disse não e, então, aquele senhor entregou um saco cheio de dinheiro. Minha passagem estava comprada.

“Não sei como agradecê-lo, Sr. Hans. O senhor nem me conhece direito e me ajudou tanto.”

“Não precisa me agradecer. Essa guerra maldita tem que acabar logo. Espero que você encontre o que procura e seja feliz.”

“Eu também.”

Subi no caminhão e fomos em direção à Polônia. Eu estava bem nervosa, queria muito que tudo desse certo. Durante as horas que se seguiram o motorista do caminhão me contou tudo sobre sua vida. Era casado, tinha cinco filhos e dificilmente conseguia ficar com eles.

“Não que eu não goste de ficar em casa. Mas é que eu sou um homem da estrada.”

Ele era um homem agradável. Falou que tinha crescido na Alemanha, mas que odiava aquele lugar. Éramos dois.

“Quer dizer que a senhorita é polonesa? Faz muito tempo que não converso com uma puro-sangue.”

“Por favor, não me chame assim.”

“Eu sinto muito.”

“Hum, enfim, sim sou polonesa. Minha família toda é de lá e eu vim para a Alemanha quando tinha quinze anos.”

“E agora que finalmente essa guerra tem data de validade, é bom voltar para casa, certo?”

“Certo.”

Ele me deixou na fronteira polonesa. O resto foi fácil. Mostrei meus documentos e, por pena ou desgosto pelo trabalho, minha entrada no meu próprio país foi tranquila. Eu realmente estava feliz por estar em casa.

A viagem até Varsóvia foi perigosa. Não sabíamos se haviam soldados nazistas escondidos. Tudo estava cercado e era muito perigoso seguir viagem sozinha. Conheci alguns viajantes durante o caminho que me ajudaram. A maioria estava na mesma situação que eu, queria voltar para casa. Viajei em carroças, carros, a pé, e, depois de alguns dias, finalmente cheguei à Varsóvia.

Eu não vinha aqui desde 1939 e tudo estava tão diferente. A Guerra havia destruído toda a beleza daquele lugar. O ano novo estava se aproximando e tudo o que eu queria era que o próximo ano fosse melhor do que os últimos. Eu andei um pouco pelo centro, pelos lugares que costumava ir quando criança. Fui até a Escola em que estudei e na Igreja do Reverendo Kowalak. Tudo era tão nostálgico, mas nada era igual.

Eu entrei na Igreja e vi o local onde costumávamos nos reunir aos domingos. Perto do velho órgão, havia uma Bíblia, ou o que tinha restado dela. Eu a peguei e comecei a folheá-la. Há quantos anos eu não lia? Eu abri no livro de Eclesiastes, naquela passagem que diz “Há tempo para tudo debaixo dos céus.” Eu sorri. Algo em meu coração acendeu e eu me senti bem.

Fiquei ali durante algumas horas, li a Bíblia e orei. Agradeci a Deus por estar viva. Apesar de ter passado por tudo o que passei, eu estava bem. Saí da Igreja e fui para casa. Ao entrar na vila que eu havia nascido, desabei. Entrei em minha casa, antiga casa, e tudo estava ali, cheio de pó, mas estava ali. Subi até meu antigo quarto e vi que não tinha nada do que me lembrava. Roupas, cama, tudo havia sido retirado dali.

O lugar que eu havia nascido, crescido e conhecido já não existia mais. Eu tinha medo que alguém entrasse ali, então peguei tudo o que eu precisava e me mudei para a casa do reverendo. Lá pelo menos as coisas não estavam tão feias. Consegui consertar as portas da cozinha e da sala de estar e comecei a procurar por cortinas ou tecidos para poder cobrir as janelas quebradas. Não sei se destruíram nossa vila por causa da Dona Podleski ou por pura maldade, mas eu não podia deixar as coisas daquele jeito. No dia seguinte, comecei a arrumar a casa, varrer, jogar coisas no lixo, eu queria me sentir um pouco segura novamente. Achei um retrato antigo de Nikolai. Como ele estava feliz na foto. Segurava uma bola de futebol e sorria. Eu me lembrei, então, do seu grande sorriso e de seus olhos azuis. O que será que tinha acontecido com ele? Será que tinham conseguido embarcar para a América ou tiveram o mesmo fim de meus pais? Eu não sabia ao certo, mas queria muito um dia descobrir.

Durante alguns dias eu arrumei, recolhi, tirei ervas daninhas do nosso antigo jardim. Eu queria entrar na casa da Dona Podleski, mas sinceramente, estava com medo. O meu dinheiro estava acabando e eu precisava começar a lidar com o fato de que viraria uma moradora de rua se nada mudasse. A guerra não tinha sido apenas ruim para as nações judias, tinha sido ruim também para os cidadãos de bem.

Em uma noite, quando tudo parecia ter acabado, eu perdi todas as minhas esperanças. Queria apenas que tudo acabasse.

A Guerra finalmente tinha acabado. Cinco meses já haviam se passado até que tudo finalmente acabou. Eu tinha reconstruído o jardim de minha mãe e ele estava produzindo legumes e verduras. Tinha ganhado também duas galinhas. Então, todos os dias eu tinha ovos frescos. Eu conseguia leite em troca de uma dúzia de ovos na praça. Eu estava sobrevivendo. Era melhor do que nada.

Durante as noites frias, eu e mais algumas pessoas nos reuníamos na antiga Igreja, aquela que eu frequentava quando criança, fazíamos uma sopa e nos sentávamos desejando que as sequelas da Guerra acabassem logo. Apesar do fim dela, ainda era difícil conseguir um emprego ou sair pelas ruas sem sentir medo. Acho que seria assim pelo resto da minha vida.

Desde que eu tinha voltado à Varsóvia, investiguei sobre meu irmão, Stefan, e descobri que ele realmente tinha se alistado. Mas, para minha surpresa, ele não havia morrido durante os primeiros ataques. Ele foi forte, lutou bravamente e morreu na última batalha que a Polônia teve contra a Alemanha. Apesar de saber que ele era um herói de guerra, eu queria que ele estivesse aqui, comigo. Eu sabia que agora eu estava realmente só. Tudo tinha acabado.

Depois de alguns meses, outras famílias foram ocupar as casas da nossa vila. Elas vinham me pedir permissão, mas eu não tinha nada a que permitir.

“É melhor morar em um teto com goteiras do que na chuva, não é mesmo?”

Era o que eu sempre dizia. As pessoas estavam feridas. A Guerra havia deixado muitas marcas. Conhecidos, amigos e familiares estavam mortos. Eu mesma decidi seguir em frente. Depois de dois anos, a casa que antes pertencia ao Reverendo e sua família estava pronta. Com janelas novas e portas que abriam e fechavam. Eu não tinha redecorado nada. Gostava do estilo deles. Dormia no quarto que pertencia a Nikolai. Eu orava todas as noites para que ele estivesse vivo. Que retornasse algum dia para me buscar. Com o passar do tempo eu fui me esquecendo dele e de todos os outros.

Eu vivi minha vida. Dez anos depois ainda se podia ver o que a Guerra tinha feito com a Polônia, mas agora em menor escala. As coisas estavam voltando ao seu lugar. Podíamos encontrar crianças tímidas brincando nos pátios das Escolas e nas Praças. Mulheres carregavam crianças em seus carrinhos e iam até o mercado. As fábricas voltaram a funcionar.

Quando tudo começou, eu tinha apenas quatorze anos, mas para mim tudo ainda era muito real. Uma noite depois de eu ter completado sessenta e cinco anos, alguém bateu em minha porta. Eu fui até lá para ver quem era.

“Sim, pois não?”

“Boa noite. Desculpe o incomodo, mas por acaso você é Katanyna Janowicz?”

“Sim, sou eu mesma. E o senhor, quem é?”

Em minha frente eu podia jurar ver Nikolai. Mas esse rapaz era mais novo do que ele e tinha um sotaque diferente.

“Meu nome é Andrew Stephan Kowalak. Acredito que a senhora tenha conhecido meu pai, Nikolai Kowalak.”

Meus olhos se encheram de lágrimas.

“Claro. Nikolai. Por favor, entre. Fique a vontade.”

“Obrigado. Desculpe incomodá-la a essa hora. É que eu não encontrava a casa indicada. É bem difícil encontrar essa vila.”

“Ah. Isso é um fato. Com toda a tecnologia chegando e o afasto, nossa vila ficou bem difícil. Eu, particularmente, adoro, assim tenho mais paz e tranquilidade.”

“Sra. Janowicz, sabe por que estou aqui?”

“Por favor, me chame de Nyna. E sim, eu sei por que está aqui. Veio me dar notícias de seu pai.”

“Sim. Isso mesmo.”

“Como está o Nikolai? Como tem passado?”

“Ele está morto, Sra. Nyna.”

“Oh. Eu sinto muitíssimo. Nikolai foi meu amigo de infância.”

“Sei disso. Essa casa pertencia a ele e meus avós, não é mesmo?”

“Sim. Eu tomei a liberdade de mudar para cá há muitos anos, cuidei de tudo e quase não mudei a decoração ou os móveis. O quarto dele ainda é o mesmo. Quer ver?”

“Na verdade, não. Seria muito para mim. Vir até aqui já me causou um esforço muito grande. Mas eu precisava.”

“Por que, meu filho? Por que você precisava?”

“Porque foi a última coisa que meu pai me pediu antes de morrer. Que eu o trouxesse até a Varsóvia e jogasse suas cinzas no jardim que era da sua mãe. Eu achei isso tudo uma loucura, a senhora me entende, não? Mas então, eu encontrei algo que me fez mudar de ideia.”

“E o que foi?”

“Isso.”

Esse me entregou um caderno de capa de couro cheio de anotações com a letra de Nikolai.

“Eu achei no armário dele e li tudo. Depois, eu sabia que tinha de trazê-lo.”

“Eu não entendo, menino.”

“Meu pai saiu da Polônia apenas um menino, a senhora deve se lembrar. Ele e meus avós foram para a América em um dos muitos navios que embarcaram para lá. Mas ele nunca se perdoou por ter deixado a senhora aqui.”

Eu sabia que o que ele dizia era verdade. Nikolai nunca teria sido capaz de me abandonar aqui.

“Se a senhora me permitir, amanhã eu tenho que voltar para os Estados Unidos e preciso cumprir com minha palavra. Posso espalhar as cinzas dele?”

“Fique à vontade.”

Enquanto o filho de Nikolai se dirigia até o meu quintal, eu permaneci sentada em minha poltrona. Comecei a folhear as páginas daquele caderno, até que cheguei em uma das últimas anotações.

“Querida Nyna. Há quanto tempo não nos falamos? Há quanto tempo não nos vemos? Espero que um dia ainda possa me perdoar. Oro todos os dias, desde que saí da Polônia, por você, Edyta, Stefan, a Sra. Irena e o Senhor Józef. Você agora deve entender que não tivemos outra opção. Foi necessário vir para a América. Aqui papai fez fortuna e mamãe conseguiu sua casa de dois andares. Tolices, eu sei. Queria tanto que estivesse aqui comigo. Me casei quando tinha vinte e dois anos, bem no final da Guerra, com uma moça muito bonita chamada Bethy. Tivemos quatro filhos. Andrew, Edith, Joseph e Nina. Você sempre foi uma boa amiga para mim e me arrependo de não ter te trazido ou ter ido atrás de você depois do fim da Guerra.

Fui um covarde, minha amiga. Vivi toda minha vida pensando em como poderia tudo ter sido diferente. Mas agora, velho e com sérios problemas de coração, fica quase impossível para mim fazer qualquer esforço. Espero que você e sua família tenham sobrevivido a tão terrível destino. Aqui podíamos ver por outro ângulo como a Guerra foi cruel e brutal na Europa.

Eu te amo, minha querida amiga Katanyna. Que Deus te abençoe grandemente.

Do seu amigo, Nikolai Kowalak.”

Dezembro de 1989

E, assim, eu também fui morar no céu e rever todos os meus amigos e familiares.

“Estou chegando, pessoal. Estou chegando.”

Carol Simão
@CarollOlliver
Ábaco de letras | contando estórias