Contra-diario

Querido oiraiD,

como eu ja tinha avisado, voltaria a voce quando eu precisasse. Eh verdade, demorei bem mais do que pensara, mas entenda que tambem subestimei algo mais: minha dor.

Eu disse que nao era um covarde, mas percebi que minha autoanalise foi miseravelmente falha. Bastou o outono com cara de inverno polar aparecer que toda a minha coragem de sumir de bicicleta, acampando a esmo sem lenco e sem documento, esvaiu-se como a espuma apos a onda do mar. Percebi que esse meu retardo foi acertado ao ouvir o noticiario sobre a morte de seis moradores de rua por causa do frio. Entendi, finalmente, que terei de ser paciente e frio, como este outono, se quiser ter sucesso nessa minha loucura.

A ideia continua sendo sair sem rumo, porem com um pouco mais de prudencia. Certa vez, ouvindo um album do Renato Teixeira (que eu nem gosto tanto), gravado com os mitologicos Pena Branca & Xavantinho (que sao genios), achei boba a exaltacao que eles deram a data da gravacao do show ao vivo: “hoje eh um dia muito importante, pois estamos entrando na Primavera juntos.” Mas, hoje, finalmente rendido a esta singela comemoracao caipira, entendo a grandeza de suas palavras e passo a usar esta mesma data como o meu “Dia do Parto”. Fique avisado, portanto, querido oiraiD, que no dia 22 de setembro de 2016, inicio da Primavera, subirei em minha bicicleta sem data para voltar (se voltar).

Agora que voce ja tem os updates dos meus planos, imagino que devo te contar sobre a minha dor. Acho que voce se lembra de quando eu disse que “na mesma semana em que finalmente quitei meu apartamento, perdi minha esposa. Perdi meu chao. Perdi meu tudo.” Pois bem, chegou o momento de relatar como isso se deu. A verdade eh que relutei muito em escrever as linhas que se seguem, mas decidi faze-lo para nao me arrepender no futuro, se eh que alguem (quem sabe eu mesmo) voltara algum dia a essas paginas manchadas de lagrimas.

Tudo comecou com um passeio bobo. Papai insistiu que eu testasse seu carro novo (mesmo sabendo o quanto eu odeio dirigir carros alheios). Cedi a sua alegria de adolescente e, por causa disso, terei de domar minha vontade de culpa-lo por tudo o que aconteceu a seguir durante toda a minha vida.

Como talvez voce ja saiba, oiraiD, eu sempre ando devagar e nao foi diferente desta vez, ainda mais pelo fato de nao ser o meu carro. Tambem, pela natureza do passeio, nao fui muito longe. Alias, eh hora de mudar o numero do verbo: nao fomos (minha esposa, meu chao, meu tudo estava ao meu lado).

Iamos tranquilos por uma estrada proxima, mas ao fazer uma curva notei um carro quebrado bem a nossa frente. Nao daria tempo de parar e, instintivamente, joguei o carro para a direita (nao sei o quanto meu subconsciente agiu tentando proteger minha perola, uma vez que, jogando o carro para o lado direito, eu seria o primeiro a ser exposto a batida). Minhas ultimas lembrancas antes de apagar: o cantar dos pneus, o estilhacar dos vidros e um grito de dor…

Acordei com a chuva caindo em meu rosto e o borburinho das pessoas em volta. Ao passar a mao no rosto para liberar a visao percebi que a chuva estava avermelhada e que nao vinha so de fora, mas tambem de dentro de meus olhos. De inicio nao sabia muito bem o que estava acontecendo, mas, mal recuperei a consciencia, sai (quase sem visao) em busca do meu amor. “Oh! Onde estara o meu amor?”

Depois de mais de um seculo de busca, encontrei-a ainda com uma fagulha de vida, lutando para me ver pela ultima vez. Levantei sua cabeca. Seu olhar entrou atraves de meus olhos vermelhos: “Abrace-me, querido, so por um instante.” Eu a abracei forte, tentando inutilmente transferir a ela um pouco da vida que me restava, e demos nosso ultimo beijo. Eu sabia que havia encontrado o que muitos passam a vida procurando sem sucesso: a alma gemea. E, agora, eu sabia que a havia perdido. Ela se foi, mesmo eu a tendo apertado forte. Perdi meu amor, minha vida, naquela noite.

Agora sei onde esta o meu amor. Deus a levou de mim. Ela esta com ele e eu terei que depender de sua graca se quiser ve-la novamente quando for a minha vez de deixar este mundo.

Talvez nao tenha sido assim que tudo aconteceu, querido oiraiD (voce ja foi alertado disso), mas eh assim que quero me lembrar.

André Barsottini
@andrebarsottini
Ábaco de letras | contando estórias